/Por Daniel Salles

Aos sintomas os viticultores de Bordeaux já se habituaram. São eles: temperatura média elevada, sobretudo na época da colheita, diminuição do ciclo de cultivo das videiras e amadurecimento precoce das uvas, o que tem antecipado as vindimas – hoje elas ocorrem cerca de 20 dias antes do que há 30 anos.

O culpado todo mundo sabe quem é: o aquecimento global. Para remediar os efeitos dele, os produtores têm transferido a colheita para a noite, diminuído a poda das folhas – que ajudam a proteger os cachos do sol – e dado preferência às uvas que levam mais tempo para amadurecer e resistem melhor ao chamado estresse hídrico.

São cuidados paliativos. Para enfrentar as incontornáveis mudanças climáticas, o Conselho do Vinho de Bordeaux (CIVB), que rege os produtores locais, receitou no ano passado um tratamento mais radical: ampliar o leque de uvas que podem ser usadas na composição de seus rótulos. Em outras palavras, a entidade propôs alterar as regras de suas severas Apelações de Origem Controlada (AOC), que todo viticultor local precisa respeitar para dizer que seus vinhos são de Bordeaux. Como elas serviram de exemplo para a criação de incontáveis normas do tipo mundo afora, é de esperar que outras regiões se sintam livres para rever suas diretrizes.

Nova realidade

Das 362 AOCs instituídas na França, 65 ditam os rumos do famoso território no sudoeste do país. Atualmente, elas permitem o plantio de seis uvas tintas e oito brancas, que não precisam ser descritas nos rótulos e podem ser combinadas livremente. Cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot, malbec, carmenère e petit verdot fazem parte do primeiro grupo. O segundo é composto de sémillon, sauvignon blanc, sauvignon gris, muscadelle, colombard, ugni blanc, merlot blanc e mauzac.

A meta do CIVB é autorizar outras sete variedades, mais aptas a prosperar no cenário climático atual e futuro. Para os vinhos tintos, ganham sinal verde a touriga nacional (símbolo de Portugal), marselan, castets e arinarnoa (fruto do cruzamento da tannat com a cabernet sauvignon). As liberadas para os brancos são alvarinho, liliorila e petit manseng. As novatas poderão corresponder a no máximo 10% dos blends e ocupar não mais que 5% dos vinhedos.

As mudanças ainda dependem do aval do Instituto Nacional de Denominação de Origem (Inao), ligado ao governo federal, e valem para as apelações Bordeaux e Bordeaux Superior, que respondem por 55% das plantações e produzem cerca de 384 milhões de garrafas a cada ano. “Bordeaux está se preparando parao futuro, mas estamos cientes de que precisamos agir agora”, declarou Allan Sichel, que dirige o CIVB, durante um simpósio sobre mudanças climáticas promovido pela feira Vinexpo.

“Nosso objetivo é preservar as características de Bordeaux, a frescura, a elegância, o equilíbrio, a digestibilidade e a complexidade aromática. Para conseguir isso, talvez seja preciso mudar tudo o que fazemos.”

Análise inaugural

O primeiro resultado prático das mudanças será a alteração da paisagem. Atualmente, no que se refere aos tintos, a uva merlot encobre 66% dos vinhedos de Bordeaux, a cabernet sauvignon responde por 22,5%, cabernet franc por 9,5% e malbec, carmenère e petit verdot por apenas 2%. Nos vinhedos destinados aos brancos, a proporção é: 47% de sémillon, 45% de sauvignon blanc, 5% de muscadelle e 2% de sauvignon gris, colombard, ugni blanc, merlot blanc e mauzac.

Mesmo que as novas regras não entrem em vigor, as porcentagens tendem a mudar com o tempo. Petit verdot, por exemplo, ganha cada vez mais espaço. Em 2000, a área destinada a essa variedade somava 375 hectares. Em 2018, eram 1.093 hectares, um aumento de 191%. A razão é a boa resistência da espécie, de amadurecimento tardio, às condições climáticas atuais.

Já merlot e cabernet sauvignon, os ícones de Bordeaux, sofrem com
temperaturas médias que oscilam entre 17° C e 19° C, dois a mais que no século passado. Para ficar madura, a uva merlot precisa de uns 16° C. Já a cabernet sauvignon prefere por volta de 17,5° C. Como as temperaturas tendem a aumentar, o reinado das duas variedades pode estar ameaçado num futuro próximo. As candidatas para roubar seus tronos já são conhecidas.

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