/Por Marjorie Zoppei

Por duas vezes, tive a chance de fazer a visita pelas caves da Taylor’s, em Vila Nova de Gaia (Portugal), guiada por Fernando Seixas. Boa-praça e bom de papo, ele transformou o passeio em uma imersão descontraída ao universo do aclamado vinho fortificado. Com um timing afiado, tira o peso de nossos ombros na hora da degustação: antes associado a rituais cerimoniosos, Seixas mostra que não precisa ser especialista para apreciar um Porto.

“É uma bebida versátil. Pode ser consumida antes, durante, após a refeição ou em drinques. Vinho do Porto é vinho, e não licor, e não tem hora para tomá-lo”, diz. Não só eu, mas todo o mercado entendeu o recado. Tanto que o volume de vendas cresceu consideravelmente durante o primeiro semestre de 2020.

“Nesse período, vendemos a mesma quantidade comercializada ao longo de 2019 inteiro. No Brasil, o crescimento no consumo durante a quarentena foi de 13%”, explica. Em nosso bate-papo virtual, ele nos conta mais um pouco sobre o momento de revolução pelo qual o Porto passa.

Qual é a importância do vinho do Porto para a cultura portuguesa?

É um dos grandes clássicos europeus. As primeiras expedições de vinho sob o nome de “vinho do Porto” foram registradas em 1678 e, por isso, podemos dizer que é o pilar da enocultura portuguesa. É o vinho português mais exportado, de maior prestígio e reconhecido nos quatro cantos do mundo. O potencial de envelhecimento e a qualidade também contribuem para tal. A área do Douro, local onde nasceu o vinho do Porto, é uma das mais antigas e belas regiões vinícolas europeias, a primeira a ser legalmente demarcada, em 1756.

No Brasil, o vinho do Porto era associado a bebida de pessoas mais velhas. Agora, passa por um processo de rejuvenescimento. Como foi esse movimento?

O vinho fortificado é, de fato, uma bebida de pessoas mais velhas (não
velhos), que já fizeram um percurso de aprendizagem no consumo de vinho. Com quatro séculos de história, essa herança pesa quando o consumidor compra uma garrafa e resolve abri-la. Noto que o consumidor mais jovem tem algum receio e desconhecimento quando abre uma garrafa de vinho do Porto. No entanto, o mesmo já não se passa quando esse consumidor já tem mais idade (acima dos 35) e está habituado a beber vinhos de Champagne, Bordeaux etc. É possível perceber maior disponibilidade, interesse e conhecimento.

O que foi desmistificado no consumo do vinho do Porto para que essa renovação acontecesse?

Dizer às pessoas que essa bebida magnífica não tem de estar num pedestal, mas sim em cima da mesa, para consumirmos. Temos feito muitas degustações explicando que não há segredo nem momento para tomar vinho do Porto. Só precisa ter vontade! O trabalho é apresentar os diversos estilos de vinhos do Porto e suas características, encontrando consumidores para cada um deles. Desmistificar os momentos de consumo fixos (habitualmente só na sobremesa), trazê-lo para o dia a dia em vez de ser só tomado em ocasiões especiais e conseguir fazer com que o vinho do Porto seja tratado como vinho, e não como “licor”.

Quais foram as estratégias da Taylor’s para falar com o público jovem, em especial os millennials?

Considerados um público educado e com algum poder aquisitivo, são eles que estão agora entrando no consumo do Porto. Temos feito um trabalho muito sólido e abrangente na promoção do Porto para coquetéis, tornando-o um ingrediente base para um imenso número de novas bebidas. Isso permite que consumidores de ambos os sexos possam ter contato com o vinho do Porto, mesmo que seja em drinques. O exemplo mais simples e universal é o Portonic, feito de Porto branco e água tônica. Um enorme sucesso.

Como tem sido a resposta do público global?

O crescimento do consumo mundial é estável, com taxa de evolução positiva de cerca de 1% ao ano. No Brasil, temos médias de 20% ao ano. Esse crescimento é benéfico, mas também existem alguns aspectos negativos, em minha opinião. Um país que cresce ao ritmo de 20% ao ano permite a entrada de muitas marcas no mercado (hoje, no Brasil, há mais de 70 marcas de vinho do Porto à venda) – marcas essas que não investem e têm como único argumento de venda o fator “preço”. Isso desqualifica o
mercado, a bebida e todo o trabalho de cultura, de apelo à mixologia e de motivação ao consumo das categorias superiores (Reserva Ruby, Tawnies,
LBV, Vintage). Hoje, a categoria que mais cresce é a [de vinhos do Porto
com envelhecimento de] 10 Anos, o que demonstra o trabalho e o apelo que têm sido feitos para o consumo de categorias superiores.

Responsável pelas exportações para o mercado brasileiro, consegue enxergar uma evolução nos consumidores daqui?

Sem dúvida, estão mais conhecedores e mais entusiastas. Noto, nestes últimos dez anos, que o conhecimento e o interesse por vinho em geral têm crescido muito. O vinho do Porto vem junto. Basta ir a um restaurante e ver que a maioria das pessoas está tomando vinho. Isso não acontecia há uma década. Claro que essa nova tendência é muito cosmopolita. No entanto, o Brasil não é somente São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília ou Recife. Há milhões de consumidores em potencial que precisam ser “convertidos” ao vinho – e esses podem estar em qualquer região, em qualquer cidade menor do Brasil. Esse é um trabalho contínuo e transversal por todo o país.

A Fladgate Partnership inaugurou um museu do vinho, o World of
Wine. O que é esse projeto?

O World of Wine (WOW) foi inaugurado em 31 de julho. É um conjunto
de conceitos culturais, culinários e de retalho em 35 mil metros quadrados
na zona histórica das Caves de Vinho do Porto. São seis experiências
museológicas imersivas, nove restaurantes, bares e cafés, espaços para
eventos e exposições temporárias, lojas e uma escola de vinhos. A

Apesar da crise, 2020 tem sido um ótimo ano para a Taylor’s: três Vintages consecutivos, o Single Harvest 1970… O que mais podemos esperar?

Pioneirismo, inovação, superação e uma vontade férrea de produzir os
melhores vinhos do Porto.

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