/Por Tânia Nogueira

No final do século XIX, a filoxera, um inseto vindo da América do Norte, devastou os vinhedos da Europa. A filoxera se alimenta da seiva da videira e deixa suas raízes vulneráveis a fungos. O primeiro registro da praga é de 1863, no Languedoc, França.

Em poucos anos, ela se espalhou por toda a Europa e teria dizimado todos os seus vinhedos não fosse a ideia dos viticultores franceses Leo Laliman e Gaston Bazille de que enxertar as variedades de Vitis vinifera em porta-enxertos (ou cavalos) de videiras americanas. A essa altura já se sabia que a raiz das vinhas americanas não eram afetadas pela filoxera. Ou seja, bastava enxertar o caule de Vitis vinifera numa raiz resistente. 

De lá para cá, a grande maioria das uvas viníferas do mundo todo são plantadas sobre um cavalo americano. Caso contrário, a filoxera, que não foi extinta, pode matar a videira. Mas existem alguns terroirs, ilhas de sanidade, onde por um motivo ou outro a filoxera não chega ou, se chega, não se dá bem. Nesses locais, a Vitis vinifera é plantada na própria raiz. Nesse caso, dizemos que é uma videira de pé franco.

Na ilha de Santorini, na Grécia, por exemplo, os vinhedos crescem quase como plantas selvagens rasteiras, sem enxerto e sem condução. A ilha, além de estar a quilômetros do continente, tem solo vulcânico e arenoso, o que não facilita a vida da filoxera.

No Chile, os vinhedos são isolados do mundo pelos quatro cantos, ao sul tem a Patagônia, a leste, os Andes, a oeste, o Pacífico e, a norte, o deserto de Atacama. Ali as pragas têm dificuldade de chegar. Então, é comum ver vinhedos em pé franco por lá.

Mas, de uns tempos para cá, alguns produtores têm arriscado plantar vinhedos em pé franco em diversas regiões. Um dos primeiros, foi o português Luís Pato, que, em 1988, plantou 1,2 hectare da casta baga na Bairrada. Em solo arenoso, as vinhas cresceram saudáveis e até hoje produzem. Na Argentina, a bodega Riccitelli produz algumas uvas sobre pé franco.

O grande argumento a favor do pé franco é que ele produz vinhos mais concentrados. A raiz da Vitis vinifera é mais fraca do que a da videira americana. Portanto, vai menos fundo e tem menos acesso à água e nutrientes. Assim, rende uvas menores, com menos água, o que resulta em vinhos com mais concentração. Vale provar.

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