/Por Rafael Tonon

Os portugueses querem conquistar o Brasil. E têm armas poderosas: os vinhos. Um dos poucos países que ainda mantêm mais de 200 centenas de variedades nativas em produção – um “tesouro de castas locais”, segundo o The Oxford Companion to Wine –, Portugal consegue ter uma enorme diversidade de rótulos em seu pequeno território, que conta com 14 regiões.

Por isso, a produção vinícola é mesmo um dos motores da economia do país, que gira principalmente em torno das exportações. E elas não param de crescer, sobretudo para o Brasil, lugar que se tornou um porto seguro para muitas vinícolas portuguesas.

Algumas delas reportam que foram as vendas para o país que conseguiram segurar melhor as contas durante esses meses tão difíceis de pandemia, em que o consumo interno diminuiu consideravelmente com o fechamento dos restaurantes e, principalmente, com a redução massiva do turismo.

Em 2019, o Brasil foi responsável por 7% do total de vinhos exportados por Portugal e vem aumentando sua participação progressivamente. Nosso país já figura em segundo lugar no ranking de vinhos de mesa, atrás apenas dos Estados Unidos. Se incluirmos na equação os vinhos fortificados, como o Porto e o Madeira, somos os quartos (atrás de França, EUA e Reino Unido).

Crescimento constante

A presença dos vinhos portugueses aqui tem sido gradativa: em 2018, representavam 6% do total de rótulos exportados por Portugal; em 2019, o volume foi para 7%. Mesmo com a pandemia, os especialistas do setor acreditam que o número deve subir neste ano. Prova disso é a posição dos vinhos portugueses no mercado geral: hoje, eles só estão atrás do Chile em vendas no Brasil, tendo ultrapassado a enorme presença de nossos vizinhos argentinos.

“Historicamente, sempre estivemos atrás da Argentina, mas hoje já estamos à frente, um marco importante. No caso do Chile, pesa uma desvantagem competitiva em preço, porque nós temos uma carga fiscal mais alta”, afirma Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, a agência de promoção dos vinhos portugueses no mundo. Não fosse por isso, ele acredita que o país estaria em primeiro lugar.

Motivos para essa previsão otimista não faltam. “Há uma relação afetiva grande entre portugueses e brasileiros. Os brasileiros gostam muito do vinho português, gostam do sabor, das características, além de ser uma bebida que fala a mesma língua”, defende ele sobre os rótulos serem também mais fáceis de ser interpretados. Principalmente em um mercado que se tornou tão diverso, com informações e rótulos vindos de regiões diferentes, que antes não chegavam até nós.

“Eu fui muito ao Brasil para vender vinhos quando era produtor. É um país que me encanta pelo conhecimento das pessoas que fazem as provas. Os brasileiros são interessados, gostam de experimentar, fazem muitas perguntas”, diz Falcão, que já trabalhou em vinícolas como Bacalhôa e Esporão.

O próprio Esporão cresceu em volume de vendas no Brasil de 2019 para 2020 e, nesta época atípica, está 90% acima do que no ano passado. “Olhando de 2015 até agora, temos crescido ano a ano entre 5% e 15%, com alguns momentos piores. Este ano de 2020 é que surpreende.

Em meio a uma crise, percebemos uma mudança de hábitos de consumo (que aumentou), e, principalmente, da forma de comprar (em supermercados, on-line e delivery)”, afirma Henry Araújo, responsável pelo departamento de marketing da Qualimpor, a importadora do grupo Esporão no Brasil.

Esse resultado é obtido tendo por base principalmente marcas como Monte Velho e Esporão Reserva, já estabelecidas no mercado brasileiro há 25 anos. “São rótulos reconhecidos e de confiança dos consumidores brasileiros, algo que ganhou mais importância nestes tempos em que vivemos”, completa.

Estabilidade marcante

Desde que, em 2006, passou a exportar para o Brasil, a família Relvas também tem aumentado anualmente por aqui a presença dos vinhos que produz nos 65 hectares que possui em São Miguel de Machede, no Alentejo. Depois de uma mudança de exportadora em 2010, o fundador, Alexandre Relvas, conta que o mercado brasileiro se tornou ainda mais importante para a propriedade, que exporta 70% de sua produção.

O Brasil, com 13% dessa fatia, só perde para a Rússia. “O trabalho nos levou ao reconhecimento da marca entre os apreciadores brasileiros, o que nos permitiu vender gamas mais altas, uma prova de que os clientes se identificam com o vinho que fazemos e não os escolhem só pelo preço”, diz Relvas, que produz vinhos como Ciconia, Herdade de São Miguel e Arq. Terra (esse último feito com o uso de talha).

O Brasil, segundo ele, é um país onde há bastante conhecimento sobre Portugal, sobre os vinhos e as regiões. “O Alentejo, por exemplo, é muito reconhecido pelos brasileiros quando falamos em vinho, porque tem características que eles gostam: são frutados e aromáticos, bebidos com facilidade”, explica.

Essa relação entre os brasileiros e os vinhos lusos fez o Brasil ser selecionado para sediar a primeira edição exclusivamente on-line do maior evento de vinhos portugueses no mercado internacional, o Vinhos de Portugal, que acontece no fim de outubro, com mais de 5 mil pessoas. “Escolhemos o Brasil pela facilidade da língua, por nosso relacionamento especial e por ser um mercado para o qual estamos olhando cada vez mais”, conclui Frederico Falcão. Os chilenos que se cuidem.

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