/Por Sergio Crusco

Flores brancas, lichia, tabaco, ameixas em compota, pedra de isqueiro, notas de violeta. As descrições de aromas feitas por sommeliers ou impressas em rótulos e fichas técnicas de vinhos podem causar reações distintas.

“Não é possível que o camarada sinta tudo isso ao cheirar uma taça.” Outra é a autocomiseração: “Como eu não sou capaz de perceber todos esses aromas no vinho?”. Para incrédulos e os que se acreditam desprovidos de acuidade olfativa, há ótimas notícias.

É possível treinar essa capacidade como quem cumpre uma rotina de exercícios na academia ou aprende uma nova língua. Se você nunca percebeu o aroma de flores brancas em sua taça de chenin blanc, pense em quantas vezes parou para prestar atenção real ao cheiro dessas flores. Mas, se você passar a sentir esses e outros aromas com disciplina e consciência, em breve terá habilidade de reconhecê-los no vinho.

Malhação do olfato

Essa não é uma técnica esotérica reservada a iniciados. É um método que gera resultados positivos e mensuráveis e está ao alcance de todos. A Clínica de Aroma e Sabor da Universidade de Dresden, na Alemanha, registrou o crescimento de cerca de 12% do bulbo olfatório (área do cérebro que distingue os aromas) em pessoas comuns que passaram pelo treino diário de cheirar apenas quatro fragrâncias (limão, rosa, eucalipto e cravo) por um período de quatro meses.

A jornalista americana Bianca Bosker, autora do livro Cork Dork – Loucos por Vinho (Sesi-SP Editora), passou por um treino semelhante em sua jornada para transformar-se em sommelière e se diz prova viva da experiência: “O olfato é um sentido único, por ser flexível e adaptável. Quando você exercita, pode adquirir supersentidos”.

O treino de reconhecer os aromase identificá-los em vinhos aprimora
a memória, o pensamento cognitivo e o raciocínio abstrato. Quando
estimulada com a ingestão de pequenas doses de vinho, a atividade cerebral de sommeliers, monitorada por ressonância magnética, mostrava- se muito mais complexa em comparação à de amadores, convidados a participar de pesquisas similares realizadas na Itália e na França.

A sommelière Gabriela Bigarelli faz uma analogia entre o método de aprendizado dos aromas e a meditação, outra prática reconhecidamente benéfica à saúde cerebral. “Parar por alguns minutos para sentir e memorizar aromas é praticar o estado presente, estar 100% com você
numa atividade que traz prazer.”

“Não é um caminho simples, mas é perfeitamente realizável. O despertar sensorial não tem volta”, diz a empresária Daniella Romano, criadora dos kits Nariz do Vinho, cujo exemplar mais completo conta com 54 frascos de fragrâncias, aparato recomendável a quem deseja ir fundo na descoberta aromática.

Talvez não seja seu intuito transformar-se num sommelier capaz de distinguir imediatamente, só pelo nariz, um malbec argentino de um natural de Cahors. Treinar o olfato, porém, fará com que sua experiência com vinhos e não só com eles – seja muito mais abrangente e prazerosa.

Inspiração aromática

Alguns passos para aprimorar seu nariz.

Concentre-se nos aromas à volta: hortaliças, frutas, ervas e especiarias no mercado. Sinta o cheiro de flores, cogumelos, pão, couro, cacau, tabaco… Feche os olhos ao inalar, o que aumenta a percepção e grava no cérebro com facilidade.

Investir em um kit de aromas é um bom caminho. Bianca Bosker conta que escolhia cinco aromas por semana e os inalava por 30 segundos, duas vezes ao dia. Isso ajuda a identificá-los facilmente no vinho.

Divida o treino pela família de aromas. Comece pelos cítricos, como limão, laranja e tangerina. Passe para frutas amarelas, como abacaxi, banana e melão. Em seguida, as vermelhas e silvestres. Depois, flores, especiarias e assim por diante. Até chegar aos aromas próprios dos vinhos evoluídos, como tabaco, castanhas, passas e compota.

Certos hábitos atrapalham o olfato: tabagismo, comida apimentada, perfume, xampu de aroma potente e sal em excesso. Depois de escovar os dentes, espere uma hora para começar um treino de olfato ou uma degustação.

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