/Por Rafael Tonon

Uma nova legião de vinícolas quer mostrar que bons vinhos não precisam estar relacionados com o imaginário de dirigir até uma área rural, cruzando com parreirais pelo caminho, apenas para provar a relação que os enólogos criaram com a terra. Adeptas do movimento urbano, elas querem comprovar que é possível fazer vinhos de excelência a apenas algumas estações de metrô de distância.

O crescimento demográfico nas cidades aponta para essa tendência, e as novas gerações adotaram um estilo de vida bem atrelado aos centros onde vivem. A urbanização da vida moderna possibilitou, no mundo das bebidas, a abertura de taprooms e cervejarias centralizadas, seguidas pelas destilarias. Os vinhos não podiam ficar de fora.

E nem deviam: com as facilidades de transporte e tecnologias, que permitem fazer vinhos com padrão de qualidade em qualquer lugar, era sintomático que produtores buscassem essas opções. Muitos deles também viram nesses espaços uma forma de começar: sem dinheiro para adquirir grandes fazendas, preferem investir em equipamentos e compram uvas de pequenos produtores, que chegam sem percalços a seus modernos desengaçadores e esmagadores.

“Temos tudo de que precisamos para fazer bons vinhos nesse espaço”, diz o celebrado enólogo David Baverstock, que se uniu ao empresário britânico Howard Bilton para criar a Howard’s Folly, uma vinícola em um espaço de 1.500 metros quadrados no centro da cidade portuguesa de Estremoz, no Alentejo. As uvas provêm de duas conceituadas regiões do país, Portalegre
(a 50 quilômetros) e Monção e Melgaço (a 470 quilômetros). “Mas é aqui que a mágica acontece”, brinca.

Outra vantagem é ter visitantes constantes, não apenas turistas, já que os próprios moradores podem frequentar as instalações. Muitas propriedades apostam em restaurantes, gastrobares e até em programações culturais (de exposições de arte a concertos musicais) para criar um ponto de encontro que termine – ou comece – em vinho. Conheça quatro vinícolas urbanas que valem a pena incluir em sua lista.

Tank Garage Winery (foto destaque)

Calistoga, Estados Unidos

A atmosfera meio rockabilly e as instalações em um antigo posto de gasolina abandonado já seriam o bastante para fazer uma visita. Mas ainda há os vinhos, que saem dos tanques supervisionados por James Harder e Jim Rugusci, com nomes tão convidativos (e instigantes) quanto The Revolution Will Not Be Television (pinot noir, cinsault e valdigué) e Going Home (vermentino e petit manseng). O enólogo Bertus van Zyl usa uvas de diferentes produtores para criar seus blends.

O foco são bons rótulos, sem seguir padrões: em um período de vinificação, pode contar com dezenas de castas para chegar a suas receitas engarrafadas. Não dava para esperar previsibilidade de uma vinícola que chama sua sala de degustações de Lubrication, né?

Howard’s Folly (foto acima)

Estremoz, Portugal

O mural colorido do grafiteiro franco-português Le Funky dá o clima: é uma vinícola urbana, ainda que esteja no interior do Alentejo, uma das principais regiões vinícolas de Portugal. Ela nasceu em 2018 a partir da paixão e da amizade entre Howard Bilton, colecionador de artes britânico, e David Baverstock, enólogo australiano.

Ali se faz a produção de pequenos lotes de vinhos premium, com base em castas essencialmente portuguesas de regiões como Portalegre (Alentejo) e Monção e Melgaço (Vinhos Verdes). A poucos metros da praça principal de Estremoz, a vinícola reúne no edifício um centro de enoturismo e o restaurante The Folly. Ainda há diversas obras de arte para serem apreciadas pelo espaço, como uma tela gigante do artista chinês Miao Xiaochun.

Renegade London Wine (foto acima)

Londres, Inglaterra

“Uma vinha produz uvas e uma vinícola produz vinho. Nós somos a segunda opção”, diz a apresentação dessa vinícola, localizada em Gale Gardens, no leste de Londres. Basicamente, o que a Renegade defende é que nem toda vinícola precisa ter sua vinha, mas pode trabalhar com pequenos vinhedos para produzir as melhores frutas, cultivadas pelas melhores pessoas, sob as melhores condições. Com uvas que recebem de países distintos da Europa, eles estão de olho numa nova tendência de produção. Dizem que querem quebrar as regras do mundo enológico, “uma garrafa por vez”.

Les Vignerons Parisiens (foto acima)

Paris, França

O brasão com um barco estampado nas garrafas pode indicar uma vinícola ancestral. Mas a localização a alguns passos do metrô no descolado bairro do Marais, em Paris, é prova de que se trata de um projeto no mínimo ousado para um país tão ligado a tradições – especialmente quando o assunto é vinho. É a primeira e única vinícola urbana da França, criada por quatro sócios que compram uvas de alguns dos melhores produtores do
Rhône: todas colhidas manualmente, de método orgânico ou biodinâmico.

Os vinhos são feitos a partir de cada vinha, como um 100% cinsault (batizado em homenagem à rua em que está localizada, Turbigo) e um blend de viognier, marsanne e roussanne, nomeado Lutèce. Na visita à adega dá para acompanhar do recebimento das uvas (que levam 15 horas para chegar a Paris!) ao papel de cada um dos maquinários que eles têm ali. Depois, é só voltar à rua para encontrar um bom bistrô para almoçar.

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