/Por Fernanda Meneguetti

“Um vinho que vale menos de 20 euros não pode ser bom”, repete a torto
e a direito Alexandra. Perdão, a condessa de Vazeilles. Sua gama de entrada, porém, não sai por menos de 30 euros. Pretensão? Atrevimento? Insolência? Quiçá uma nota de cada uma dessas características. Acima de tudo, paixão. E trabalho duro.

Cedo, beeeem cedo durante o verão, a proprietária do Château de Bachelards já tomou sua infusão com ervas de sua horta em permacultura – as mesmas plantadas pelos monges que um dia viveram ali –, comeu croissants com uma folhagem de invejar qualquer padeiro e está pronta para suas vinhas.

Falando nas dela, seus 12 hectares mais preciosos têm a mesma dimensão de um dos Clos de Romanée-Conti e estão em Fleurie, um dos dez crus de Beaujolais. Ops, Beaujolais, madame? Ela titubeia e diz “Baixa Borgonha”, não sem se irritar: “Vinho não é geografia, é terroir. Ou você compara um Latour a um vinho vulgar do Médoc? Em Beaujolais, o preço normal de um hectare é de 1.500 euros, aqui pode valer 200 mil euros. E sinto muito, mas isso comprova qualidade”.

Amontoa-se ao redor dessa antiga abadia queimada durante a Revolução Francesa um emaranhado de solos graníticos com até 350 milhões de anos – feldspatos, xistos, quartzos e outros nomes impronunciáveis. Sobre ele, vinhas antigas, entre 60 e 100 anos, onde cresce apenas a cepa nativa da região: a gamay. Tudo é orgânico e biodinâmico. Tudo é devidamente certificado. Tudo foi premeditado.

Reinado e legado

Alexandra devia ter 11 ou 12 anos e não imaginava ostentar um título de nobreza quando soube que queria se dedicar à agricultura. Ouviu um jardineiro da casa dos pais, responsável pelas oliveiras, dizer em pleno julho que o inverno seguinte seria duro. Antes sabedoria do que premonição, aquela interpretação dos sinais da natureza se confirmou e se tornou uma meta para a menina.

Contudo, foi só aos 18 anos, ao provar a primeira taça de vinho, que ficou claro como ela seria cumprida. A partir de então, a jovem passou a fazer babysitting para comprar vinhos e, uma vez formada, enveredou-se pela consultoria em finanças e novas tecnologias nos Estados Unidos.

Ao retornar para a França, duas décadas mais tarde, Alexandra foi obstinada: diplomou-se em enologia e viticultura, trabalhou no Premier Grand Cru Classé, em Pauillac, do mítico Château Latour, e também no Domaine Roulot, em Meursault, e no Montille, em Volnay. Avaliou terroirs na França inteirinha.

Em 2013, enfeitiçou-se pelo famigerado Beaujolais. “Você pode julgar Beaujolais, e você tem razão: um vinho que vale 5 ou 10 euros não pode ser bom. É um vinho tecnológico, cheio de química. Ou as pessoas perdem dinheiro ou elas fazem qualquer coisa. É como uma saia Zara e uma Yves St. Laurent. As duas são saias, mas não são a mesma coisa. Eu sou Yves St. Laurent, me desculpe. E meu vinho encontra seu mercado, obrigada.”

E, verdade seja dita, a dama do Bachelards não compra uvas, faz colheitas manuais, não utiliza maceração carbônica nem semicarbônica, tampouco termovinificação. Recorre a leveduras indígenas, permite que o envelhecimento por lá leve mesmo 22 meses em tonéis de carvalho e está satisfeita com o rendimento de 25 hectolitros por hectare, acomodados, pasmem, em garrafas Bordeaux.

“Seu mercado, obrigada!”

Das 40 mil garrafas produzidas anualmente, somente 20% ficam na França e parte significativa é compartilhada com restaurantes 3 e 2 estrelas Michelin, escolhidos a dedo por Alexandra. Taninos ora sedosos, ora provocantes. Violetas e mirtilos. Frescor com crocante elegância. Granada profunda ou brilhante. Terra e pedras. Uma vastidão de características prestes a amadurecer pelos próximos 40 anos. Prontas para se combinarem aos melhores pratos.

Personagem polêmica, a senhora do Château des Bachelars não esconde o orgulho recorrente quando, às cegas, seus rótulos são situados em Hermitage ou na Borgonha. Nem nunca esconderá o entusiasmo pelo próprio ofício: “Não quero ser uma artista desconhecida, isso não sou eu”.

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!