/Por Daniel Salles

Taí uma bebida que Donald Trump dificilmente engoliria – e não só porque ele diz evitar bebida alcoólica. Lançado em setembro do ano passado, o primeiro rótulo da vinícola Domaine de Long Dai é um blend de uvas cabernet sauvignon, marselan e cabernet franc colhidas em 2017. Cada garrafa custa aproximadamente 300 dólares, o equivalente a quase 1.600 reais, e as 30 mil garrafas já foram vendidas. E todas na China, onde está localizada a vinícola.

Em guerra comercial com o país de Mao Tsé-Tung, o presidente americano provavelmente não daria chance ao tinto só em razão da procedência. Se bem que, como apreciador de vinhos, Trump se mostra um excelente showman. Ou dá para esquecer a seguinte pérola, proferida no ano passado? Disse ele: “Sempre gostei mais dos vinhos americanos do que dos franceses, embora não beba vinho. Simplesmente gosto da aparência deles”.

Mas a julgar pela campanha que ele move atualmente com o intuito de melar os planos da Huawei (a companhia chinesa ambiciona participar da implantação da rede 5G mundo afora), Trump elegerá os vinhos da China como novo alvo de ataques logo, logo. Porque, queira ele ou não, o rival asiático já virou um dos maiores produtores da bebida – e está determinado a entrar no seleto mapa dos melhores, lado a lado com a França e os Estados Unidos.

Os números desmentem qualquer fake news que o americano possa inventar a respeito. De 2000 a 2011, as importações de vinho no país
asiático cresceram impressionantes 26.000%. Produtores chineses interessados em aplacar tamanha sede não faltam – em matéria de volume, a China é o décimo maior produtor da bebida, de acordo com o último ranking disponível, de 2018.

Gigante do mundo

A Domaine de Long Dai, fundada em 2009, está localizada na província de Shandong, a 500 quilômetros da capital, Pequim. É fruto de uma parceria da estatal chinesa Citic com uma família que atua no ramo de vinhos desde 1853 – os Rothschilds. Os descendentes do clã que comandam a empreitada
chinesa são os mesmos à frente do lendário Château Lafite Rothschild, em Bordeaux, do Domaine d’Aussières, também na França, e da Viña Los Vascos, no Chile, num total de sete vinícolas.

Quando o primeiro rótulo chinês da família veio ao mundo, Saskia de Rothschild, que preside as sete vinícolas, declarou o seguinte: “Nossa relação com Lafite tem 150 anos. Saber aguardar o surgimento de um vinho de que nos orgulhamos, portanto, faz parte de nossa cultura. É o primeiro capítulo de uma longa história como viticultores na China”. A investida no país asiático se justifica pela insaciável sede dos consumidores chineses, notadamente abastados, pelos tintos de Bordeaux, dos quais os Rothschilds viraram sinônimo.

É o que explica a chegada de tantos produtores europeus. O país até ganhou uma Bordeaux para chamar de sua: a região de Ningxia, cuja latitude é a mesma da incensada localidade francesa. Escorada pelas montanhas de Helan, no sudoeste de Pequim, a versão chinesa virou sinônimo de vinhos graças ao clima desértico e aos estímulos governamentais.

Começo da história

Os primeiros rótulos locais a chamar atenção foram os da Helan Mountain, surgida em 1998 – a vinícola pertence ao conglomerado francês Pernod
Ricard
. Instituída em 2007, a Silver Heights não está ligada a nenhuma
companhia estrangeira, mas sua fundadora, a chinesa Emma Gao Yun, especializou-se como vinicultora em Bordeaux. Fundada em 2013, a fábrica chinesa da Chandon, da LVMH, também se encontra em Ningxia, assim como um dos produtores mais elogiados do país, o Château Changyu Moser XV. Fundado em 2013, esse último pertence à vinícola mais antiga da China, a Changyu, fundada em 1892.

O comando está nas mãos do enólogo austríaco Lenz Moser, o 15º na linhagem de uma conhecida família de vinicultores – daí o nome do château, que custou 70 milhões de euros. No meio do ano, ele lançou na Europa seu melhor rótulo até aqui. Falamos do Purple Air Comes from the East 2016, um cabernet sauvignon que ganhou apenas 6.300 garrafas. Na Inglaterra, cada uma delas está sendo vendida a cerca de 150 libras, ou mil e poucos reais.

Fazer sucesso na terra da rainha e em outros grandes centros da Europa é crucial para essas vinícolas, determinadas a ombrear com as melhores do mundo. É onde vive boa parte dos mais respeitados críticos de vinhos, para não falar das inúmeras publicações especializadas e dos influenciadores. Também ajudam a convencer os exigentes consumidores chineses, ainda não persuadidos de que o país do dragão também faz vinhos excepcionais – não será pelo preço que os primeiros trocarão os famosos rótulos franceses pelos made in China.

A 195 libras a garrafa, ou 1.300 reais, o YunA 2016 também foi lançado na Inglaterra. Produzido pela vinícola de mesmo nome, é um blend de cabernet sauvignon, cabernet franc, syrah e petit verdot. Criada em 2008, a Ao Yun pertence à LVMH. Para visitá-la é preciso desembarcar na província de Yunnan, ao sul da China, e rumar para as montanhas – a uma altitude média de 2.200 metros.

Marcado por invernos não tão severos e clima seco, o terroir foi escolhido pelo aclamado enólogo australiano Tony Jordan (morto no ano passado, responsável também por tirar do papel outra empreitada da LVMH, a operação australiana da Moët & Chandon). O sucesso da missão foi referendado por um conterrâneo de Trump, o crítico de vinhos James Suckling. Ao novo rótulo, ele concedeu 96 pontos de 100. Engoliu essa, Trump?

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