/Por Fernanda Meneguetti

Um afloramento vulcânico no meio do Atlântico, a 600 quilômetros da costa africana. Dizem que é Portugal, mas é Madeira: a ilha das flores, de Cristiano Ronaldo e do vinho homônimo. A começar pela bebida, crush de Bonaparte e Shakespeare, infiltrada no brinde pela independência americana e objeto de intrigas na literatura russa.

Seus aromas complexos e adocicados são produzidos desde o século 15, graças a mudas gregas da uva malvasia enviadas pelo infante lusitano dom Henrique, que, nada bobo, queria assentar a ocupação do território. Apesar disso, a fama do vinho fortificado tardou uns 200 anos para despontar
e surfou maravilhosamente bem até meados do século 20, quando, vendido a granel, perdeu o glamour de outrora e passou sobretudo a encorpar molhos e escoltar filés mundo afora.

Chiquetices à parte, toda essa história é bem contada pela Blandy’s, família inglesa e empresa produtora da bebida desde 1811. Suas sete gerações figuram no museu e as mais recentes delas se fazem presentes em rótulos de malvasia, boal, verdelho, sercial e terrantez (isso mesmo, as castas são sempre brancas!), que podem ser degustados ou comprados na loja em Funchal, a capital insular.

Preciosidades madeirenses

Enquanto algumas garrafas da Blandy’s ultrapassam alguns milhares de euros, há exemplares honestos, com distintos e elegantes graus de dulçor,
por cerca de 20 euros (cerca de 80 reais), valor pelo qual – pasmem! – é possível provar um bom vinho da Madeira que não é madeira! A prova
dos nove? Certos exemplares da jovem vinícola Terras do Avô.

Espalhadas pela freguesia do Seixal, suas vinhas de verdelho, touriga nacional, tinta roriz e syrah vivem sob a influência da brisa do mar e do solo vulcânico. Dão vida a cerca de 15 mil garrafas de tintos, outras 15 mil de brancos e pouco mais de mil de espumantes a cada ano.

Sob os cuidados da família Duarte Caldeira, é Sofia, a neta do “Avô”, quem costuma acolher visitantes para degustações no jardim da casa dela. Esticar até ali significa a chance de mergulhar (vale até para o inverno) nas piscinas formadas por rochas vulcânicas e água do mar de Porto Moniz, que ficam do ladinho.

Mais: é um ótimo pretexto para regressar faminto ao turismo enogastronômico. Estão à disposição as tradicionais espetadas (o churrasco feito em galhos de louro), a poncha (a batidinha local), os peixes-espadas assados e fritos, os maracujás, as anonas (atemoias) e as pitangas do Mercado dos Lavradores. Há também experiências transcendentais, duas delas protagonizadas pelo mesmo chef – Benoit Sinthon, madeirense (sic) nascido nos arredores de Marselha.

O cozinheiro à frente da gastronomia dos hotéis PortoBay recorre a uma horta própria para suas criações – seja no Il Gallo d’Oro (único duas-estrelas da Ilha), seja no novo Avista. No primeiro, restaurante localizado no The Cliff Bay, Sinthon propõe até dez etapas de cocções delicadas (de um lagostim ou mesmo de um pombo), montagens minuciosas e sabores profundos.

Já na cozinha centenária que pertence ao Les Suites, outro cinco-estrelas da mesma rede hoteleira, ele brinca de combinar aromas mediterrânicos e asiáticos. Em ambos os casos, o franco-madeirense serve, com vista para o mar, uma cozinha autoral e refinada. De certa forma, o chef sintetiza o espírito do turismo na ilha: deixar-se fascinar pelo local – em produtos, cenários e essência.

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!