/Por Marjorie Zoppei

Foi uma garrafa do vinho do Porto Dom José, presente que recebeu do sogro, a responsável por transformar um jovem na carreira de administração em um grande enófilo, comunicador e consultor de vinhos.

Carlos Ernesto Cabral de Mello – ou simplesmente Carlos Cabral para o grande público – foi quem fundou o modelo de confraria que hoje conhecemos no Brasil: a Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho
(Sbav), em 1980. Também foi pioneiro muitas outras vezes no mercado enológico.

Autor de diversos livros, popularizou a bebida em gôndolas de supermercados e é companhia frequente na rádio brasileira. Palestras, viagens a vinícolas aqui do país e internacionais e consultorias na área também fazem parte do dia a dia de Cabral, que sempre tem uma história para contar sobre suas descobertas e paixões (em especial, o vinho do Porto).

Como deixou de ser administrador hospitalar para ser um profissional do vinho?

Eu estudo vinhos desde 1969, portanto com 19 anos. A administração hospitalar entrou em minha vida porque eu trabalhava com produtos cirúrgicos e também era um curso novo – sou da segunda turma desses
profissionais. Aos 30 anos, resolvi trabalhar com o que eu sempre gostei: transformei um hobby em profissão.

Você foi o responsável pelo nascimento da primeira confraria de vinhos brasileira, em 1980. Em que contexto foi criada e quais eram suas expectativas?

Não havia nada sobre esse assunto no Brasil. Não tínhamos nem com quem conversar! Cada um bebia vinho em casa e não havia amigos para partilhar e aprender. Daí veio a ideia de fundar a Sbav, que atingiu seus objetivos logo ao completar dez anos, pois já tinha filiais pelo Brasil, e muitas outras pessoas copiaram o exemplo dela e montaram suas confrarias. O Brasil necessitava desse tipo de agremiação, pois todos, até hoje, são sedentos de conhecimento.

Faz ideia de quantos rótulos já provou?

Não, mas vendo meus amigos que registram tudo o que tomam, tenho certeza que alguns milhares foram provados. Nesta semana [a entrevista
foi feita em 12 de outubro], provei 185 vinhos de Portugal. Já engrossou a conta!

O dom da comunicação é nato ou o vinho que ajudou a desenvolvê-lo? Afinal, foi com ela que auxiliou a educar milhares de consumidores…

Considero nato. Sou falador e amo história. Passar para a frente conhecimentos é fácil. Não me intimido ao falar em público e estudo muito para sempre ter novidades e um bom vocabulário. Por isso, me sinto um peixe fora d’água com essas tecnologias, nas quais tudo tem de ser minimalista e o contato humano fica para trás!

De acordo com o Datafolha, o Pão de Açúcar foi considerado pelos paulistanos o melhor lugar para comprar vinho. Como foi a jornada para transformar uma rede de supermercados numa referência em venda de vinhos?

Muito trabalho! Desde o ano 2000 temos os atendentes de vinhos, e até hoje formei 525 profissionais. O Pão de Açúcar é o líder de vendas de vinhos no Brasil, e para chegar a esse lugar muito se fez em selecionar vinhos e educar consumidores. E afirmo com muita segurança: isso é apenas o começo, pois há muito o que se fazer neste mundo dos vinhos no Brasil!

Para celebrar os 20 anos com a rede varejista, foi lançada uma linha de vinhos em sua homenagem, incluindo um vinho do Porto. Tem uma queda especial pelo fortificado?

O vinho do Porto foi e ainda é paixão à primeira vista. Adoro sua natureza
e sua história é fascinante. É um vinho que tem mais alma do que os outros, e sua complexidade de estilos é única. Afirmo com muito orgulho que o vinho do Porto completou a educação que recebi de casa!

Qual é o papel de eventos como o Festival de Vinhos de Portugal, que acontece em novembro, para o mercado do vinho no Brasil?

Papel de abertura para novos estilos de vinhos, pois um país que tem
250 uvas diferentes tem muito a oferecer. Portugal possui vinhos que falam nossa língua, estilos diversos, múltiplas regiões produtoras e milhares de rótulos únicos. Isso tudo completa os laços de amizade que nos une há séculos.

A respeito de nossa produção nacional, como você enxerga o futuro dela?

Sempre a subir em qualidade e quantidade. O Brasil tem um futuro brilhante nesse setor, e não podemos esquecer que área de cultivo não nos falta. Ainda teremos produção de norte a sul, de leste a oeste. Quem viver verá! A qualidade do vinho brasileiro, a cada ano, se sobrepõe, e um dia receberemos o reconhecimento do mundo todo.

Além dos espumantes nacionais, teremos algum outro produto que possa ser reconhecido internacionalmente pela qualidade?

Nossos tintos das uvas merlot e shiraz darão o que falar no futuro.

Em sua adega/coleção pessoal, quais são suas preciosidades?

Felizmente, em minha adega os rótulos são rotativos. Há preciosidades reservadas para datas especiais, mas o grosso são de vinhos correntes que provo diariamente. Alguns Portos são históricos!

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