/Por Tânia Nogueira

A edição de outubro da revista inglesa Decanter traz uma série de reportagens sobre a América do Sul. Na capa, quatro garrafas, uma de cada um dos principais países produtores do continente: Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. Até bem pouco tempo atrás, o Brasil simplesmente não seria mencionado.

Essa capa é um sinal do ótimo momento que o vinho brasileiro vive. Porém, vinhos indicados mesmo só há dois: o Vista da Serra 2017 e o Vista do Chá 2016, ambos da vinícola paulista Guaspari. “A capa é motivo de orgulho para todos nós”, diz o master of wine brasileiro Dirceu Vianna Junior, autor do artigo sobre brancos sul-americanos. “O fato de não haver muitos vinhos brasileiros no conteúdo da revista é porque eles são pouco conhecidos e distribuídos não apenas na Inglaterra, mas no mundo.”

Território nacional

Interessante notar que os dois rótulos recomendados na reportagem são da Região Sudeste, uma área vinícola nova e que tem causado uma revolução no país. Com tradição na produção de vinhos desde o fim do século 19, a Serra Gaúcha dominou por décadas. Bastante úmida, ela apresenta uma série de desafios que fez com que, por muito tempo, fosse vista como um terroir menos nobre.

Com os avanços tecnológicos das últimas décadas, porém, logrou produzir ótimos brancos e tintos. Revelou-se também um grande berço de espumantes. Outros terroirs, no entanto, começaram a chamar atenção no fim do século 20: o Nordeste, com suas várias colheitas anuais; o Planalto Catarinense, com seu clima frio e sua altitude elevada; a Campanha Gaúcha, com seu clima seco e sua ótima amplitude térmica. Essa última, por sinal, recentemente se transformou em uma Indicação de Procedência (IP).

Comportamento global

Se a distribuição de vinhos brasileiros no mercado externo ainda é um problema, dentro das fronteiras ela parece finalmente começar a engrenar. “A internet ajudou muito”, afirma Deunir Argenta, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra) e proprietário da vinícola Luiz Argenta, na Serra Gaúcha.

“O microprodutor não tem volume para entrar nas redes de supermercados. O que vimos com a pandemia foram pequenos mercados e empórios, impulsionados pelos clientes, procurarem pela internet essas vinícolas nacionais menores para comprar vinhos.”

O consumo cresceu no Brasil com a quarentena, especialmente nos dois primeiros meses do isolamento. Mas os vinhos brasileiros tiveram um crescimento mais expressivo. Segundo a Uvibra, entre janeiro e agosto de 2020, foram vendidos 17.001.333 litros de vinhos nacionais, um aumento de 67,71% em relação ao mesmo período de 2019. A venda dos importados subiu 17,8%.

Os números são animadores – ainda mais se entendermos o que está por trás deles. É evidente que a variação do câmbio contribuiu, uma vez que os importados subiram muito de preço. Mas não foi a única causa. “Já tínhamos o projeto de trabalhar mais com vinho nacional”, conta Lucas Oliveira, sommelier da Sociedade da Mesa, cuja loja on-line ampliou significativamente seu portfólio de rótulos verde-amarelo.

Preço, no entanto, não foi o fator principal, garante Lucas Oliveira, que esteve no Sul selecionando os rótulos. “Descobri muita coisa interessante. O Brasil tem diversidade”, declara. De lá, trouxe o Indômito, da vinícola Pueblo Pampeiro (Campanha Gaúcha), que é um licoroso de tannat; o Oro Vecchio, da vinícola Leone di Venezia (São Joaquim, SC), um vinho laranja; o branco e o tinto do Vinho Velho do Museu, da vinícola Carrau (Serra Gaúcha) – dois vinhos velhos, 2009 e 2004, respectivamente.

Lançado em 1971, o Velho do Museu tinto foi o primeiro ícone nacional. Na época, era um corte de cabernet franc e merlot. Hoje, leva também cabernet sauvignon. De lá para cá, muita coisa aconteceu na vitivinicultura brasileira. “As coisas não acontecem por acaso”, diz o enólogo Daniel Dalla Valle, diretor técnico do Grupo Famiglia Valduga, empresa que ganhou o prêmio de vinícola brasileira do ano no Guia Descorchados 2020. “Tudo é fruto de um trabalho de longa data.”

Posicionamento internacional

Na área industrial, as vinícolas brasileiras investiram muito em equipamentos. “Hoje a tecnologia de nosso parque é comparável à da Europa”, confessa Dalla Valle. Há também um constante investimento em barricas de carvalho de qualidade. Com tudo isso, o Brasil produz atualmente tintos com taninos mais redondos, vinhos prontos para beber, como pede o mercado.

Mas será que são melhores do que os das décadas de 1970, 1980 e 1990 que, para surpresa das próprias vinícolas, hoje estão maravilhosos? Para o enólogo Adriano Miolo, superintendente do Grupo Miolo, há, sim, um ganho de qualidade. Ele dá como exemplo a categoria dos vinhos nobres. São vinhos com graduação alcoólica acima dos 14%, que antes não podiam ser classificados como vinhos finos pela lei brasileira.

“Muitas vezes, as melhores uvas têm muito açúcar e a fermentação naturalmente leva para um grau alcoólico mais elevado. Antes, cortávamos esses vinhos com outros de menor qualidade para baixar o álcool e, assim, poder engarrafar como vinho fino. A partir deste ano, engarrafamos eles puros, como vinhos nobres. Esses vinhos vão durar muito.”

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