/Por Cristina Bielecki

Apesar de o berço ser Lisboa, o ainda jovem português Bruno Almeida se mudou para perto da sub-região de Bucelas, uma área com longa tradição vinícola e o berço da casta Arinto.

A família nunca teve laços com o mundo do vinho, mas desde pequeno ele partilhou momentos (eno) nostálgicos com amigos e familiares – especialmente de lugares como Dão, Douro e Alentejo. Nos anos 1990, destacou-se como baterista e, em 2002, aventurou-se com a banda dele para Nova York.

“Como arte não paga aluguel, comecei a trabalhar em restaurantes, e logo minha odisseia no mundo dos vinhos se iniciou e nunca mais parei”, diz. O primeiro trabalho foi lavando pratos por causa da falta de experiência. Crescendo na carreira, seguiu como bartender e garçom, manager e wine director. “Sou certificado pela Court of Master Sommeliers America, mas a verdadeira experiência e certificação passam pelo trabalho nas mesas.” Conheça mais sobre o “drummelier” nesta entrevista exclusiva para a Sociedade da Mesa.

Como é seu trabalho de sommelier hoje?

Sou wine director e sommelier no Tocqueville, um restaurante icônico de culinária francesa em Nova York, aberto em 2000. Devido à realidade da pandemia, a casa faz neste momento uma fusão com outro restaurante, o 15 East, especializado em comida japonesa, que pertence ao mesmo grupo.

Como é a carta de vinhos para um cardápio com as culinárias
francesa e japonesa, duas cozinhas tão diferentes?

Elaborei uma carta que vai desde o Velho Mundo até os Estados Unidos, da Grécia a Portugal, da Espanha ao Líbano, da Itália à Califórnia, do Oregon à França, passando pela Alemanha e Áustria. O frescor e a complexidade dos vinhos portugueses casam bem com a culinária e a cultura do restaurante.

Como você vê o vinho português hoje?

Vou com frequência para lá devido aos eventos da Revista de Vinhos, como a Essência do Vinho e o Encontro com Vinhos. A diversidade da cultura portuguesa é imensa e isso se reflete em seus vinhos. A nova geração está em harmonia com a tradição, e o paladar português se abre cada vez mais a novidades.

Como é a aceitação dos vinhos portugueses em NY?

Eles são extremamente bem aceitos aqui. A frescura, a complexidade das vinhas velhas, as inúmeras castas e os estilos diferentes, a qualidade com preço acessível… Tudo isso vai bem com a realidade nos Estados Unidos, especialmente em Nova York, onde a diversidade culinária e cultural é grande – e Portugal se integra nela. São vinhos gastronômicos, que refletem terroir e identidade únicos no mundo. Os vinhos verdes, em especial, expressam muito essa amplitude. Os brancos vão com comida mexicana, asiática, indiana, do Oriente Médio. Os tintos, com BBQ [barbecue, o churrasco americano] ou pastas italianas.

De que forma a música entrou em sua vida?

Ela sempre me acompanhou. Meus pais eram artistas, com gostos e influências musicais muito distintas, e isso teve um impacto forte em mim. Como baterista, músico e amante de música, sou influenciado por várias formas do metal/rock, jazz progressivo ou algo progressivo dos anos 1970. Os anos 1980 e 1990 também me marcaram muito.

Como surgiu o “drummelier” Bruno Almeida, que harmoniza vinho e música?

O “drummelier” nasceu de minha faceta de drummer [baterista] e sommelier. Tenho sempre curiosidade sobre o que enólogos e chefs ouvem e como isso influencia o lado criativo e emotivo deles. Harmonizar vinho com música reflete muito a área humana de ambas as artes. Por exemplo, o Soalheiro Primeiras Vinhas Alvarinho (2006) com Nirvana em “Smells Like Teen Spirit”, por causa de sua eterna juventude. E o Salon Clos de Mesnil Champagne (1996) com Nina Simone cantando “Feeling Good” me torna sempre mais feliz. Já o Gravner Ribolla Gialla (2004) vai com Rolling Stones em “Wild Horses” – um vinho e um produtor bem selvagens, mas sublimes e elegantes.

Quais são os vinhos que marcaram sua vida?

Essa pergunta é sempre muito difícil para mim. Posso citar o Ruinart Rose Champagne, que me diz muito, é algo como ouvir “Since I Have Been Loving You”, do Led Zeppelin, minha banda preferida. Fiquei bem impressionado com o Caves São João Poço do Lobo Arinto (1995), devido a sua frescura. É uma casta muito especial para mim. Outro vinho fenomenal que me marcou, por ser uma safra pouco apreciada, foi o Petrus 1970, que abriu mais minha mente para entender o sentido de terroir em Bordeaux.

Um dos primeiros vinhos mais sérios que provei vindos da Geórgia e que refletem muito a força do povo quando estive lá foi o Iago Chinuri 2013. Agora, um de meus Madeiras preferidos que provei há pouco tempo e me deixou nas nuvens foi o Barbeito Boal Frasqueira Madeira 1995. Entre alguns Portos memoráveis, e muitos deles centenários, o Kopke Colheita Branco Porto 1940 simplesmente elevou o nível. Para concluir, o Pio Cesare Barolo 1958, que foi provado num ambiente muito especial, com uma rolha que me deu muito trabalho [risos].

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