/Por Manuella Menezes

Você lembra o que desejou ao completar 18 anos? Uma viagem? Um carro? Entrar na faculdade? O clássico turning point na vida de qualquer jovem chega cercado de possibilidades, mas a portuense Francisca Van Zeller
mostrava que seu caminho seria inovador – mesmo que fazendo jus à tradição da família dela.

Quando completou a maioridade, o pai batizou uma vinha com o nome dela, na qual cultivou a casta Tinta Francisca (plantada em Portugal pela primeira vez no Douro, em 1756, na Quinta de Roriz, e propriedade dos Van Zeller até 2009) e mais quatro variedades.

O rótulo Vinha da Francisca é produzido até hoje, e a musa inspiradora se tornou uma das mais incensadas mulheres representantes dos vinhos portugueses. “Esse vinho simboliza um compromisso e uma ideia de legado, que as coisas são feitas para nos perpetuar. O Vinha da Francisca transmite uma mensagem de continuidade, de pai para filha, porque havia ali o desejo do seguimento de um sonho”, diz.

Passado e presente

Chica, para os íntimos, é da 16ª geração de uma tradicional família viticultora portuguesa, proprietária da célebre Quinta do Vale D. Maria. Seu pai, Cristiano Van Zeller, é um dos “Douro Boys”, grupo de produtores que, no início dos anos 2000, se uniu para levar o nome da região do Douro além das fronteiras portuguesas e apresentar os vinhos locais de alta qualidade para o mundo.

Como a própria Francisca faz questão de frisar, esse projeto também é dela desde o início. “Fui a primeira pessoa a pisar uvas da Quinta Vale D. Maria, na primeira vindima, e depois ajudava meu pai, mesmo com pouca idade. Por isso, sempre me senti muito envolvida nesse projeto, de forma familiar, emocional e, mais tarde, profissional”, lembra. Francisca chegou ao cargo de gestora de marca e mercados da Quinta Vale D. Maria e Van Zellers & Co., mas, além de crescer com a empresa da família, ambicionava estimular mais lideranças femininas no meio.

“Esse negócio nunca foi feito só por homens; quando olhamos para o campo, as mulheres sempre estiveram presentes e tiveram um papel fundamental desde a construção e o tratamento das vinhas. Mas faltava representatividade, assim como falta em muitas outras áreas. Senti que também era minha missão servir como exemplo de que uma mulher pode perfeitamente ser o rosto de uma vinícola e estimular a entrada de outras mulheres nesse ramo”, afirma.

Por isso, participou da fundação da D’Uva, associação de mulheres com o objetivo de promover os vinhos portugueses e destacar o trabalho feminino, da produção à enologia, e do United Wine Woman – Blended for a Cause, que todo ano angaria fundos para instituições que apoiem causas sociais. Em 2020, em meio à integração da Quinta Vale D. Maria ao portfólio da Aveleda, gigante do setor português e maior exportadora de vinhos verdes, Francisca foi escolhida para comandar a área de relações públicas da nova casa.

O desafio era apenas profissional: ela teve de reinventar um negócio baseado nas provas e no enoturismo em meio a uma crise global, que impediu os apreciadores de vivenciarem in loco a experiência de degustação e limitou o funcionamento dos restaurantes.

“Percebi que as pessoas queriam aproveitar a quarentena para aprender, e o mundo dos vinhos estava entre os interesses. Às experiências gastronômicas caseiras, por que não unir bebidas especiais?” Dessa reflexão nasceu o Provas em Casa (@provas_em_casa), perfil do Instagram que organiza lives com especialistas e ensina sobre as regiões viticultoras de Portugal, diferenças entre uvas, harmonizações, aromas etc.

Presente e futuro

Sem poder festejar o aniversário de 150 anos da Aveleda, a marca renovou a assinatura, exaltando sua história e reafirmando a fé no futuro. A frase “Onde os sonhos se cultivam” é uma referência ao sonho de Manoel Pedro Guedes, fundador da Aveleda, de fazer de sua quinta uma casa produtora de vinho.

O novo vinho verde comemorativo foi batizado com o nome de Manoel e inspirado em seu primeiro blend, um mix das castas alvarinho e loureiro. “Tudo nasce da origem. O vinho é resultado de seu lugar, das pessoas, de sua história. A Aveleda é um bom exemplo de como isso se
cria. É um trabalho de viticultura muito dedicado, muito detalhista e muito focado em qualidade, não em quantidade”, diz Francisca.

Para 2021, suas metas são levar essa e novas gamas de vinhos para o mundo, inclusive o Brasil. E, claro, voltar a receber os visitantes pessoalmente. “Contribuir para dar destaque a meu país, a seus vinhos, sua cultura, é o que me motiva. O vinho é melhor quando desfrutado
em conjunto, e espero que logo seja assim novamente.”

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