/Por Tânia Nogueira

Conhecido pela potência, o Chile produz também brancos de qualidade
e tintos leves cada vez mais interessantes. São bebidas feitas em regiões mais frias do que as tradicionais. “Essas uvas dão origem a vinhos com menor teor alcoólico, mais florais e, no caso dos tintos, com taninos menos pronunciados e aromas mais complexos e delicados”, explica Angelica Valenzuela, diretora comercial da Wines of Chile.

A diversidade de castas e estilos é um fenômeno recente na vitivinicultura do país. Até cerca de 20 anos atrás, a indústria de vinhos finos se concentrava em torno de Santiago, principalmente no Vale do Maipo.

Geografia de paladar

O Chile é uma faixa de terra entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico – onde existe outra cadeia de montanhas, a Cordilheira da Costa. O vale que se forma entre as duas cordilheiras tem clima ameno, protegido dos ventos frios do mar – menos nos extremos, pois a Cordilheira da Costa perde altura. Os ventos nas praias são frios porque a água é fria.

Por ali, passa a corrente de Humboldt, que vem direto da Antártica. Lá chove pouco e a agricultura depende da irrigação. Os vinhedos se desenvolveram às margens dos rios que descem dos Andes em direção oeste, alguns abrindo caminho até o mar entre as montanhas. Por ali também passa uma brisa que refresca umas regiões mais do que outras.

Os nomes dos rios são os que conhecemos como regiões vinícolas: Maipo,
Rapel, Maule, Cachapoal etc. Muitos desses vales vão dos Andes até a costa, passando pelo Vale Central – no qual a viticultura se concentrou por tempos. Ali, o calor acelera a maturação das uvas (com alto teor de açúcar) e o sol age no desenvolvimento de taninos e corantes nas cascas das tintas. Daí a vocação chilena de vinhos encorpados e bastante alcoólicos.

Virada na história

Nos anos 1980, o enólogo Pablo Morandé decidiu explorar a costa e plantar os primeiros vinhedos no Vale de Casablanca, no caminho de Santiago para o litoral. A região mostra vocação para as castas brancas, especialmente a sauvignon blanc, e para tintas de maturação precoce, como a pinot noir. O clima frio, com uma neblina (camanchaca) que cobre os vinhedos pela manhã, permite que as uvas amadureçam lentamente, desenvolvam uma complexidade aromática e mantenham a acidez.

O Vale de San Antonio, um pouco mais ao sul e próximo ao mar, também foi ocupado por vinhas. Na virada do século, era considerado um polo de vinhos brancos e pinot noir. Logo, percebeu-se que outras variedades tintas, não especificamente de clima frio, poderiam apresentar resultados interessantes nessas regiões.

“A syrah foi uma boa surpresa”, conta Alberto Guolo, enólogo da vinícola Casas del Bosque. “Tem uma maturação fenólica ótima para um tinto, com acidez típica de branco.” A syrah é uma uva que costuma se dar bem no calor, como na Austrália, por exemplo. Em regiões frias, rende vinhos mais elegantes. Mas não pode ser fria demais. A Casa del Bosque fica a apenas 15 quilômetros do mar. Por isso, a syrah teve de ser plantada em uma pequena parcela, rodeada de colinas, onde o vento não bate diretamente. “Só aí ela amadurece.”

Ciência enológica

No mundo todo, o frio depende de latitude e de altitude. No Chile, depende também da proximidade com o litoral. Tanto que a Ventisqueiro produz uma linha de vinhos de clima frio, a Tara, no Deserto do Atacama, quase ao nível do mar. A brisa e a camanchaca resfriam os vinhedos. Altitude, no entanto, conta, sim.

Hoje há vinhedos plantados nos Andes. Quanto mais sobe, mais a temperatura cai. “Mas no Chile não dá para subir tanto. É mais frio”, diz German Lyon, enólogo da vinícola Pérez Cruz. Sobre a latitude chilena, “as vinhas dos territórios mais meridionais têm um enorme potencial para nossa viticultura no futuro”, diz Angelica Valenzuela, da Wines of Chile.

“Um clima ideal com solos vulcânicos que proporcionam terroirs únicos no mundo.” O Chile, assim como a Argentina, está caminhando para a Patagônia, uma região bem mais fria e muito mais úmida. Já há vinhedos produzindo no Vale de Osorno e outros na Ilha de Chiloé, ainda mais ao sul. Só estão indo um pouco mais devagar do que os hermanos argentinos porque o Pacífico faz com que ali todas as condições sejam extremas. É uma
aventura que vale acompanhar.

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