/Por Sergio Crusco

Você já deve ter passado por momentos de dúvida ao escolher um vinho ou ao apreciá-lo com um grupo de amigos.

  • “Pediram para eu levar uma garrafa. O que escolho?”
  • “Não gostei do vinho servido, posso devolvê-lo?”
  • “Adoraria provar este de Borgonha, será que a turma topa rachar?”

Perguntas como essas surgem na vida de quem decide entrar no mundo do vinho com curiosidade e gentileza.

Há respostas para todas elas.

“Bom senso é o que devemos ter em mente ao pedir, servir, oferecer e compartilhar vinhos e outras tantas coisas da vida”, diz a sommelier Patricia Brentzel, que comenta alguns pontos às vezes complicados no relacionamento entre enófilos e seres humanos em geral.

Com um pouco de atenção a quem está ao redor, desfrutar bons vinhos pode ser mais prazeroso e elegante.

Que vinho vamos beber?

A democracia resolve o impasse.

Quando a maioria das pessoas se inclina por um vermentino refrescante e tudo o que você quer é um tannat potente, procure não quebrar o clima.

Você pode e deve defender seu ponto de vista, sugerindo que o tannat ficaria divino com as carnes que serão servidas.

Mas sem insistência.

Caso seu apelo não tenha eco, o melhor é resignar-se a ser o voto vencido da rodada.

A primeira prova

É comum o sommelier ou o garçom servir uma pequena dose de vinho a quem comanda a escolha ou a quem se dispõe a prová-lo.

“Essa primeira análise é bem rápida, apenas para sabermos se o vinho foi infectado por algum fungo (o que destrói os aromas e sabores da bebida), se oxidou, avinagrou, se está sendo servido na temperatura correta”,

diz Patricia Brentzel.

Não atrase o serviço: resista à tentação de descrever os aromas de mirtilo e flores silvestres que sente nesse primeiro momento.

Não gostei. E agora?

Não gostar é diferente de o vinho estar com defeitos.

O tinto é fresco e floral e você prefere os austeros e amadeirados? Errou no pedido, paciência.

“Alguns restaurantes têm a política de trocar vinhos que não agradam aos clientes, mas isso não é comum. Qualquer engano pode ser evitado se o sommelier souber indicar os perfis de bebidas que vão ao encontro de sua preferência. Ele é treinado para entender e decifrar o gosto das pessoas”,

explica Patricia.

Sem vergonha de perguntar

Como foi dito, sommeliers de restaurantes ou lojas estão ali para ajudar em suas escolhas.

Ninguém é obrigado a decifrar uma carta com nomes e estilos de vinhos que não conhece.

Quem não é um expert (o que pouca gente de fato é) pode recorrer ao auxílio dos profissionais.

Quem paga?

Há quem tenha hábitos refinados e os vinhos que costuma beber não são lá os mais acessíveis.

Caso queira homenagear os amigos com algo especial, convide-os para apreciar aquele rótulo.

E não é preciso exaltar as qualidades da escolha – quem tiver bom gosto saberá apreciá-la e, de alguma forma, agradecer.

Caso contrário, é preciso adequar-se ao orçamento de todos.

“É muita falta de noção querer que as pessoas bebam o que não podem pagar.”

Encher a taça alheia

Ao demonstrar atenção, é imprescindível perguntar se a pessoa quer mais vinho ou qualquer outra bebida.

Ela pode já ter atingido o limite alcoólico, pode não gostar do que está sendo servido ou simplesmente estar satisfeita.

Se a resposta for “sim”, a quantidade de vinho não deve ultrapassar a metade da taça.

O gênero do vinho

Esqueça os paradigmas do tipo:

  • “rosé é vinho feminino e Brunello di Montalcino, masculino”.
  • “Há homens que bebem rosé e mulheres que preferem os Bordeaux mais intensos e tânicos. Vamos esquecer os estereótipos, por favor.”

Recado aos sommeliers: muitas mulheres entendem de vinhos e podem guiar a escolha em um grupo. Não chegue oferecendo a carta a quem você presume ser o big boss da mesa.

Que vinho eu levo?

Nas festas em que fica combinado de cada um levar uma garrafa, é comum surgir a dúvida.

A não ser que você conheça muito bem os gostos e hábitos da turma e de quem recebe, vá pelo caminho do meio.

“Não leve nada muito comum, nem um supervinho caro e complexo. Assim, você evita qualquer desconforto.”

Se quem recebe não servir o vinho que você levou, acontece.

Pode não ter gostado da escolha, pode tê-la esquecido no calor da festa ou, espertamente, querer guardá-la para beber a sós (o que, cá entre nós, configura indelicadeza). Faça boca de siri.

Aulas à refeição

Há quem já tenha visitado dezenas de vinícolas em vários países.

Há quem saiba diferenciar um chardonnay vinificado no Chile dos exemplares de Chablis.

Mas isso não é motivo para um discurso compulsório.

Confrarias existem para reunir quem gosta de discutir os aspectos técnicos e sensoriais dos vinhos.

No dia a dia é diferente.

“A maioria das pessoas não quer ouvir uma palestra durante um jantar ou um encontro. Se acredita ter alguma informação interessante para dar a respeito do vinho escolhido, que seja de maneira rápida, leve e prática. Lugar de aula é na escola.”

Não tem nada aqui que eu goste de beber

Você chega à festa e descobre que não há nada compatível com seus gostos – vinho, destilado ou cerveja.

“Nessas horas, o melhor é agir com simpatia, beber uma taça e pronto. Não é nada delicado fazer qualquer comentário sobre a qualidade da bebida servida.”

Caso elas sejam espetaculares, elogie, claro. Quem recebe bem quer um agrado de volta. Mas seja breve.

Nunca insista para que alguém beba

É uma regra de ouro. Pode haver sérios motivos por trás da recusa.

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