/Por Tânia Nogueira

Bordeaux, quem diria, já não é a mesma.

Devido às mudanças climáticas, desde janeiro a região vinícola francesa, tida como a mais aristocrática do mundo, passou a permitir seis novas uvas, sendo duas delas de origem portuguesa, no blend dos rótulos que levam as AOCs Bordeaux e Bordeaux Supérieur.

Isso representa uma revolução.

O mundo do vinho até hoje se divide em Novo Mundo e Velho Mundo.

No Novo Mundo, que inclui Américas, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e até alguns países historicamente ligados ao Velho Mundo, como Israel, há muito espaço para experimentações, pois não existe um número grande de denominações de origem com regras rígidas.

Já no Velho Mundo, como costuma ser chamada a Europa o que conta é a tradição.

Onde há vinhedos há denominações de origem com regras bem definidas de como deve ser feita a vinificação, que tipo de manejo é permitido nos vinhedos e, principalmente, quais uvas podem compor o blend dos vinhos. Cada região tem seu estilo e é bastante presa a ele.

localização e clima de bordeaux
dados da região de borbeaux

Mudanças por força maior

É o caso das alterações climáticas, que têm modificado o mapa vitícola do planeta. Regiões antes consideradas muito frias, como o sul da Inglaterra, hoje estão cobertas de vinhedos e produzindo ótimos vinhos.

Quem trabalha com agricultura sente essas mudanças no dia a dia. Em Bordeaux não é diferente. Segundo o Conselho Interprofissional dos Vinhos de Bordeaux (CIVB), tem sido observado um aumento contínuo de temperatura.

Com isso, o ciclo de crescimento das videiras está mais curto. A data da colheita adiantou em média 20 dias nos últimos 30 anos.

Por enquanto, o aumento de temperatura tem sido benéfico para os vinhos de Bordeaux, já que a qualidade dos vinhos depende muito do grau de maturação das uvas. E o calor tem ajudado.

Aquecimento em potencial

A maturação das uvas se divide em três:

  1. fenólica (taninos e antocianinas),
  2. aromática
  3. e do açúcar.

Os índices de maturação fenólica e aromática podem ser representados por uma curva, na qual, após o ponto ideal, começa o declínio.

Já o nível de açúcar tende sempre a subir, mas, conforme ele aumenta, o índice de acidez cai. Um vinho, além de aromas, polifenóis e açúcar (para ser transformado em álcool), precisa de acidez.

O ponto ideal é quando, ao mesmo tempo, as maturações fenólica e aromática atingem o ápice e a maturação do açúcar, um nível bom sem comprometer a acidez.

Assim, a bebida fica equilibrada. A exata coincidência costumava acontecer nas grandes safras, que em geral se destacavam por um clima mais seco. O calor fez com que o número de grandes safras aumentasse.

Os produtores de Bordeaux (e do mundo todo), no entanto, estão preocupados com o futuro. Se aquecer demais e secar demais, o açúcar sobe demais e a acidez cai demais – e não dá tempo de aromas e polifenóis se desenvolverem.

Por isso, foi necessário descobrir castas que demorassem um pouco para concentrar açúcar. Há mais de dez anos, o CIVB criou um projeto de pesquisa para buscar opções.

Foram apontados vários caminhos, como novos sistemas de poda e busca de áreas mais sombreadas, mas o mais radical deles foi a inclusão das novas castas na lista das permitidas.

Cepas em notoriedade

Em busca de uvas que resistam ao estresse hídrico e a pragas que podem ser causadas por chuvas extemporâneas, o grupo testou 52 variedades diferentes e, em julho de 2019, entrou com o pedido para o Institut National de l’Origine et de la Qualité (INAO) para a inclusão de quatro castas tintas (arinarnoa, castets, marselan e touriga nacional) e três brancas (petit manseng, alvarinho e liliorila).

Dessas, só a petit manseng não foi aprovada.

As novas seis uvas vêm se juntar às já permitidas cabernet sauvignon, cabernet franc, merlot, malbec, carménère, petit verdot (tintas), sémillon, sauvignon, sauvignon gris, muscadelle, colombard, ugni blanc, merlot blanc e mauzac (brancas).

Conhecido como o bad boy de Bordeaux, Jean-Luc Thunevin, proprietário do Premier Grand Cru Classé de Saint Emilion Château Valandraud, que décadas atrás criou os chamados vinhos de garagem, não descarta a possibilidade de vir a fazer experiências com essas uvas.

“Eu já produzi chardonnay, syrah e pinot noir em Bordeaux para a marca Bad Boy”, conta. “Não uso a AOC, claro. Vendo como ‘vin de France’. ” Para ele, as castas novas não devem alterar o perfil dos vinhos da região, pois são “acessórias”.

As novas regras exigem que elas não participem com mais de 10% do blend. Nem todos são da mesma opinião. Jean-Jacques Dubourdieu, sócio e enólogo dos Denis Dubourdieu Domaines, por exemplo, acredita que a denominação deveria apostar mais na própria tradição.

“Bordeaux tem as próprias uvas e precisa manter sua identidade e seu estilo”, diz.

Para ele, as novas uvas podem significar uma perda de identidade.

“A castets tudo bem, porque é uma uva histórica da região que deixou de ser usada e parece que ela se adapta bem às mudanças climáticas. Mas, entre as próprias uvas da denominação, temos boas alternativas, como a petit verdot, que resiste muito bem.”

As plantações podem começar a partir deste ano. Porém, vai levar um bom tempo até sentirmos o efeito dessa medida em nossas taças.

“Duvido que as grandes AOCs invistam logo nessas novas castas”, diz Juan Carlos Ferreira, proprietário da Grand Cru Conciergerie, empresa que organiza visitas a grandes vinícolas na região.

“Provavelmente, os testes vão começar pelas denominações mais periféricas.”

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!