/Por Malu Neves

Pensar na Holanda estimula alguns clichês na imaginação: campos de tulipas no esplendor da primavera; moinhos de vento em vilarejos idílicos; queijos gouda descomplicados no uso e no sabor. Sem contar a fama permissiva provocada pela tolerância ao consumo de cannabis. Mas, se depender de uma turma persistente, o vinho local será outra marca intrínseca à simbologia cultural do país.

Por mais excêntrico que “vinho” e “holandês” pareçam quando associados, sua aceitação é promissora. Ainda que à custa de uma mazela. “Há somente uma razão pela qual ele se tornou conhecido. Infelizmente o coronavírus foi um mal necessário”, desabafa o sommelier Jan Jaap, do restaurante Bentinck, que há oito anos tenta convencer os colegas sobre o potencial do setor. Ao mesmo tempo em que a pandemia limitou viajantes à fronteira, ela também provocou a valorização do produto local.

Sommelier Jan Jaap
Sommelier Jan Jaap | Crédito: Divulgação

De forma astuta, três amigos congelaram o plano inicial de um bar para investir na primeira loja de rótulos 100% nacionais em Amsterdã. “O vinho holandês sempre foi taxado de caro”, conta Roderick Meijer, um dos sócios da Bob, cujas siglas em holandês abreviam “denominação de origem protegida”. A reputação se deve aos 15 euros por garrafa, que ele justifica: “Muitos desconhecem o talento das 170 vinícolas locais”. Com o slogan Pódio para os vinhos holandeses, o espaço almeja ser a plataforma de visibilidade que faltava aos produtores.

Vinhos Wijnhuis Amsterdam | Crédito: Divulgação

Próspero, mas imaturo

As primeiras vinícolas surgiram há 50 anos – mais da metade nas duas últimas décadas –, e sua média não passa de 2 hectares. É incabível compará-la com experientes, como a França, que produz cerca de 8 bilhões de garrafas ao ano, contra os 1,2 milhão da Holanda. Leva tempo para atingir maestria, ainda mais diante de condições climáticas implacáveis para uvas tradicionais como chardonnay, cabernet sauvignon e merlot. Por isso desabrocham castas híbridas como souvignier gris, johanniter e solaris.

Cruzadas a partir de experimentos em institutos na Alemanha, elas amadurecem mais rapidamente, exigem menos sol e resistem a baixas temperaturas e doenças fúngicas. Na maioria branco, o vinho made in Holland tem frescor, acidez, expressões frutadas e toques minerais pela influência do mar. Mas seu aroma desperta suspeitas no cliente conservador. “Ainda existe resistência às uvas incomuns”, explica David Oranje, merchant da Wijnhuis Amsterdam, cuja aposta é que em dez anos se alcance melhor equilíbrio entre qualidade e preço.

Jovem, mas predestinado

O casal Broersma flertava com a vida rural. Mas a falência da antiga empresa do patriarca foi o impulso para nascer a Frysling, em 2009. “Nos primeiros anos tivemos sorte, mas perdemos tudo numa noite de geada”, lamenta Elvira, que, com os pais, cuida da vinícola no extremo norte no país.

Jantiene Broersma, da Frysling | Crédito: Divulgação

Com dedicação e um novo sistema que borrifa água e forma uma camada de gelo protetora dos botões, vingaram colheitas gloriosas, como a que os elegeu o melhor vinhedo da Holanda e Bélgica em 2018. Caminho parecido é o de Ron Langeveld. Seu amor por plantas o fez sair do mundo corporativo para dar, em 2005, os primeiros passos na Dassemus, hoje a mais reconhecida produtora de vinhos naturais do país.

Ron Langeveld | Crédito: Divulgação

Para alcançar os rigorosos certificados Skal (orgânico) – e, em breve, o Demeter (biodinâmico) –, ele garante “boas condições à biodiversidade do vinhedo, não enfraquecendo-o com sprays e semeando ervas e flores”. Embora o foco seja atender in loco, Ron se orgulha por exportar uma minúscula parcela do vinho laranja, de caráter rústico e selvagem, para o Japão e o Canadá. Para uma indústria recente e suscetível às intempéries, a premissa deve ser qualidade e não volume. Com isso, a Holanda tem potencial para ganhar notoriedade como um país de vinhos butique.

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