/Por Ana Beatriz Miranda

A videira é uma planta suscetível a pragas e doenças, assim como qualquer outra. Mas tem uma, em especial, que marcou a história do vinho, a filoxera. As proporções do estrago feito por esse inseto quase microscópico foram catastróficas, com praticamente a extinção dos vinhedos europeus no século 19.

Filoxera dá nome tanto à praga quanto ao inseto, um tipo de pulgão (cujos nomes científicos são Phylloxera vastatrix, Dactylosphaera vitifoliae e Viteus vitifolii). Ele mede de 0,3mm a 3mm e ataca várias partes da videiras em diversos momentos do seu ciclo de vida. O ataque às folhas, por exemplo, não matam a planta, só diminuem sua capacidade de fotossíntese por conferirem uma cor amarelada a elas. Porém, quando ataca as raízes, aí, sim, a filoxera é destrutiva e mata a videira. 

Esse bichinho terrível é originário da América do Norte. Surpreendentemente, ele coexiste pacificamente com as videiras americanas, que são resistentes à filoxera. Entretanto, a praga é fatal para a espécie de Vitis vinifera europeia, como se descobriu quase tarde demais. A filoxera foi levada para a Europa em mudas de vinhedos vindos dos Estados Unidos, sem que os produtores percebessem. Um viticultor francês as plantou em Languedoc, em 1852, e rapidamente viu suas videiras padecerem. A praga se disseminou de tal modo que, em cinco anos, todos os vinhedos do sul da França morreram e em dez anos, a produção de todo país caiu drasticamente, afetando a economia global. 

Aos poucos, a praga se estendeu para os outros países do Velho Mundo, se espalhando posteriormente para a África do Sul e Austrália. Foi assim que muitas uvas desapareceram do planeta e que o pânico se instaurou. Um botânico francês foi o responsável por identificar a filoxera. A partir de então, muitos métodos de eliminação surgiram, inclusive alguns bastante curiosos, como o uso de urina e afogamento das plantas. Muitos produtores notaram que a espécie americana da videira não sofria com os ataques, mas também não geravam uvas com a mesma qualidade das europeias. 

Assim, pesquisadores perceberam que podiam unir as duas espécies de Vitis vinifera como um paliativo. Em 1874, as raízes resistentes da planta americana foram usadas como porta-enxertos para a planta europeia, garantindo a sobrevivência dos vinhedos e a qualidade da bebida. Essa foi a solução que salvou as vinhas da Europa, restabelecendo pouco a pouco a produção bem-sucedida de vinhos. A filoxera não tem cura e ainda existe, mas de forma bastante controlada. A maioria dos vinhedos europeus são plantados dessa maneira, com algumas poucas exceções de pé franco, vinhas nativas europeias com suas raízes originais.  

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