/Por Daniel Salles

Engula-me se for capaz. Caso alguém se disponha a transpor a história do indonésio Rudy Kurniawan para o cinema, fica a sugestão de título. Assim como o americano Frank Abagnale Jr., cuja trajetória Spielberg romantizou em Prenda-me Se For Capaz, o primeiro protagonizou golpes que parecem ter sido inventados para um seriado da Netflix. Interpretado por Leonardo DiCaprio, Abagnale Jr. enganou meio mundo passando cheques falsos e fingindo ser piloto, médico e até agente do FBI.

Kurniawan tapeou milionários que compraram como se fossem vinhos raríssimos os blends que ele misturava na cozinha de casa, no subúrbio de Los Angeles. Quando o FBI a invadiu, em 2012, encontrou sacolas com rolhas velhas, garrafas vazias, pilhas de rótulos e receitas para imitar vinhos antigos de Bordeaux. A do icônico Mouton-Rothschild de 1945: meia garrafa de Pichon-Lalande, um quarto de cabernet sauvignon de Napa Valley e o mesmo tanto de um bordeaux oxidado.

Identidade falsificadora

Apresentando-se como um colecionador com uma queda pela Borgonha, Kurniawan despontou no circuito americano em meados dos anos 2000 Logo passou a ser visto em leilões de tintos estelares e em jantares frequentados pelas maiores autoridades do meio, caso do crítico Robert Parker, que já o definiu como “um homem muito doce e generoso”. Tudo para tornar insuspeitas as vendas dos “tesouros” da própria adega.

As garrafas que comercializou em 2006 por meio da casa de leilões Acker Merrall & Condit, por exemplo, renderam 24,7 milhões de dólares. Não fosse a venda, dois anos mais tarde, de mais um lote apresentado como excepcional, talvez continuasse à solta até hoje. Incluiu exemplares das safras de 1945, 1949 e 1966 de um vinho cobiçado da Domaine Ponsot, o Clos Saint-Denis.

Porém, a vinícola da Borgonha começou a produzi-lo só em 1982. Então à frente do château, Laurent Ponsot sacou a fraude e decidiu desmascarar o indonésio, tido como disciplinado e sedutor – de não ter nariz e paladar apurados ninguém pode acusá-lo. Tirando o golpista, o francês é um dos que mais aparecem em Sour Grapes, documentário que resume as tramoias de Kurniawan e que está no catálogo da Netflix.

As cenas protagonizadas por ele foram tiradas do piloto de um programa de gastronomia, gravado em 2002. Uma delas é reveladora. É ambientada num jantar sofisticado, no qual alguém lhe indaga sobre sua suposta fortuna. “Não, estou quebrado”, retruca o pilantra. “Eu engano as pessoas.” Passou a perna em figuras como David Doyle, fundador da Quest, e William Koch, dono de uma fortuna de 1,5 bilhão de dólares. Desconfiado esse último pôs no encalço do golpista um detetive, que alertou o FBI.

Além dos dez anos de prisão a que foi sentenciado em 2014, foi condenado a pagar uma multa de 20 milhões de dólares e restituir 28 milhões de dólares às vítimas. Estima-se que muitas das garrafas que despejou no mercado continuem insuspeitas. No julgamento, o advogado de defesa Jerome H. Mooney defendeu o encurtamento da pena com o argumento: “Ninguém morreu. Ninguém perdeu o emprego. Ninguém perdeu suas economias”.

Foi interrompido por Richard M. Berman, o juiz: “O princípio é que, se você é rico, a pessoa que cometeu a fraude não deve ser punida?”. De acordo com Mooney, Kurniawan queria ser aceito e reconhecido pela elite que tem o hábito de degustar vinhos da Borgonha.

O falsário estava ilegalmente no país. Entrou nos Estados Unidos nos anos 1990 com visto de estudante, para o qual deu o endereço de uma modesta loja de ferragens em Jacarta. Mais uma mentira: seu nome de nascimento é Zhen Wang Huang (o codinome homenageia uma estrela do badminton na Indonésia, Rudy Hartono). Encurtada, a pena chegou ao fim no último dia 6 de novembro. Nas mãos do departamento de imigração desde então, ele aguarda a inevitável e iminente deportação.

Fragilidade eno-econômica

O que se aprendeu com os golpes? As casas de leilão, de maneira geral, redobraram a atenção e passaram a recusar vinhos de procedência duvidosa. “Não tenho dúvida de que há muitos outros falsificadores em atividade e com volumes ainda mais expressivos”, afirma o sommelier Diego Arrebola.

“A diferença é que o indonésio ganhou notoriedade.” Diz mais: “De modo geral, ele enganou pessoas que queriam ser enganadas. Boa parte de suas vítimas estava mais preocupada com os rótulos e em se exibir por meio deles do que com os vinhos em si”. O sommelier deixa uma dica: “Se você não está prestando atenção ao que está bebendo, é melhor segurar o bolso”.

Que o digam os quatro investidores de Nova York que, em outubro passado, pediram um Mouton-Rothschild de 1989 no restaurante Balthazar, no Soho. Por descuido de um garçom, em vez do tinto de 2 mil dólares, degustaram o pinot noir de 18 dólares solicitado por um casal. Fim da história: nem o casal constatou o upgrade, nem o quarteto notou algo de errado.

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