/Por Sergio Crusco

Garnacha, monastrell, mencía, bobal, tempranillo, xarel-lo, verdejo, viura, godello, palomino… São nomes de uvas que podem soar estranhos a quem se resigna ao consumo de cabernets, merlots e sauvignons cultivadas globalmente. Quem tem curiosidade ou intimidade com vinhos espanhóis no entanto, já deve ter eleito algumas dessas variedades como queridinhas.

A Espanha hoje é uma das melhores respostas a quem busca outras emoções sensoriais e não pretende investir necessariamente uma fortuna para ampliar o repertório. Claro, há grandes (e caros) rótulos espanhóis reconhecidos pela estrutura e longevidade. Democrático, porém, o país oferece opções para diversos estilos, gostos e bolsos. Deparar-se com achados é praxe para quem pesquisa.

Qualidade à parte

Dos muitos produtos que chegam ao Brasil, a diversidade faz a alegria de quem busca aventura e tem disposição para provar o novo. O país cultiva cerca de 140 uvas nativas – muitas delas pouco conhecidas mundo afora. “É extraordinária a variedade de castas, climas, solos e altitudes. As uvas autóctones enriquecem a oferta ao consumidor em um mercado global que tem vinhos cada vez melhores, mas também cada vez mais parecidos”, diz Juan Antonio Correas, chefe de promoção do Icex Espanha Exportação e Investimentos.

A posição de país emergente no mercado de vinhos possibilita bons negócios e ajuda a formar um preço mais atrativo para o consumidor. O Brasil caminha a passos largo nessa descoberta. De acordo com o Icex, a Espanha foi a origem que mais cresceu no Brasil nos últimos dez anos. Em 2020, a importação dos espanhóis subiu cerca de 24%, superando os franceses.

A tendência levou importadores a investir em informação qualificada sobre a diversidade de terroirs e estilos do país de Almodóvar para fidelizar clientes. A importadora Cantu treinou sua equipe de vendas e criou um guia de vinhos espanhóis como material de suporte. “O resultado foi uma introdução considerável de rótulos espanhóis em cartas de restaurantes”, diz Peterson Cantu, diretor do Grupo Cantu.

Por onde começar?

O paladar é o meio mais óbvio de fazer os enófilos brasileiros renderem- se à Espanha. A tempranillo, uva mais popular do país e presente em diversas regiões, tem grande responsabilidade nesse despertar. Ela gera vinhos redondos, fáceis de serem compreendidos e apreciados, sejam jovens, com nenhuma ou pouca passagem por madeira, sejam emblemáticos rótulos de guarda, como os Gran Reserva de Rioja. “Tempranillo é a uva ícone do país e dá origem a tintos mais frutados, com taninos macios, dentro do estilo que agrada muito a nosso consumidor”, diz Peterson.

A Espanha, no entanto, oferece muito mais. O desbravamento de seu mapa vinícola, com 138 regiões demarcadas e o maior território de vinhedos do mundo (cerca de 1,2 milhão de hectares), convida a vários roteiros possíveis, com saborosas idas e vindas. A quem quer juventude na taça, Paulo Amalfi, gerente de vinhos da importadora Casa Flora, sugere outras opções frutadas além da tempranillo – talvez um varietal da uva tinta monastrell produzido na região de Jumilla, que entrega vinhos bem jovens, frescos e suculentos.

Pedidas muito refrescantes, aromáticas e cheias de sabor podem estar nas castas brancas cultivadas na Catalunha, que produz o espumante cava com macabeo, xarel-lo e parellada. Outra uva branca festejada, a albariño, reina na região das Rias Baixas, na Galícia, gerando vinhos de grande complexidade sensorial, gastronômicos e com equilíbrio notável entre fruta e acidez.

Se a proposta for conhecer tintos maduros, com longo estágio em madeira e bom tempo de garrafa, as regiões de Rioja, Ribeira del Duero e Priorat têm tradição de vinificação com tempranillo, garnacha e cariñena, entre outras cepas. Um gran reserva de Rioja, por exemplo, deve passar por um mínimo de dois anos de barrica e três em garrafa antes de chegar ao consumidor – e assegura grande longevidade a quem tem por hábito guardar vinhos e esperar que evoluam.

As brancas verdejo e viura (também chamada de macabeo) são comuns no norte do país e aparecem em rótulos gran reserva com mais de 30 meses de barrica. O trabalho com madeira também é notável na região sulista de Jerez, que produz os fortificados mais peculiares da Espanha, quiçá do planeta, em diferentes estilos.

“São elegantes e superversáteis”, diz Pedro Amalfi, que recomenda a harmonização do jerez fino, o estilo mais seco, produzido com as uvas brancas palomino, com fatias de presunto cru espanhol. Ou quem sabe frutos do mar? Seja qual for a escolha, a certeza é que não haverá tédio na jornada de quem se dispuser a desvendar o mundo do vinho espanhol.

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