/Por Breno Raigorodsky

Meu chefe era apaixonado, meu sogro, o padre e o rabino também. Por que não eu? Preciso reconhecer, houve forte dose de vontade, ao menos da minha parte. Várias vezes, pensei em desistir. Mas queria tanto me apaixonar, perseguia tanto a sensação “que inebria sem perder as estribeiras”, como relatada por tantos.

Queria poder fazer parte das rodinhas no trabalho, pois quem nada sabia de vinho era um peixe fora d’água. Fui tentando conhecê-lo melhor, entendendo que muitos de seus aspectos sensoriais não tinham minha aprovação imediata – você era diferente de tudo o que conhecia, da cerveja ao uísque, quase tão doce quanto uma caipirinha no primeiro contato com a boca, quase tão amargo quanto um caju verde logo antes de engolir.

Lembro o dia que dispensei, depois do primeiro gole, uma garrafa de um vinho argentino que pedi num restaurante à beira-mar, um que nem cabia no meu bolso. Tinha ordenado um filé de meca, recém-saído da grelha, todo apetitoso, mas o vinho não descia – fazia até o peixe ficar com gosto ruim. Devolvi o vinho, troquei por uma cerveja estupidamente gelada, estupidamente mais barata.

Por um bom tempo nem quis saber de você

Foi numa festa do escritório que a paixão chegou. Estava de papo com a garota do atendimento, que me interessara desde que tinha entrado na empresa e ainda não tinha tido a chance de conversar. Até que ela falou: “Vou pegar um vinho. Quer também?”. Respondi que sim. Fui fisgado: o vinho casou perfeitamente, harmonia absoluta, nada fora de lugar. Uma engrenagem que começava nas mãos com as unhas delicadamente cortadas e acabava na boca pintada. Era um simples cabernet sauvignon chileno – vinho que virou meu segundo eu.

Dali em diante, só comia coisas que combinassem com ele, só comprava ele. Com uma taça desse vinho na mão, eu entendia tudo: sabia quanto ele me relaxava; como ele melhorava a comida; quanto saía da mesa com o peso justo.

Mal sabia eu que iria traí-lo

Pelas mãos da mesma garota, que agora almoçava e jantava comigo muitas vezes, pulei a cerca. Ofereceram a mim um vinho que custava o triplo do preço do meu chileno. De novo, fui fisgado. Dessa vez, descobri o despertar de frutas em meio a aromas de chocolate e fumo, com uma complexidade e uma tensão agradáveis entre os diferentes caminhos que trilhou na minha boca.

Cogitei não ter cometido uma traição: “Acho que gosto mais desse tal Chianti Classico Riserva”. Percebi que, em vez de cabernet sauvignon do Chile, como era meu amor, tratava-se de um 100% sangiovese, catado manualmente, fermentado em processo de remontagem duas vezes ao dia, para depois descansar em madeira da Eslavônia por 18 meses.

Comecei a ver defeitos no meu primeiro amor. Hoje não é muito mais do que uma ingênua recordação, mas na época doeu. Lembrei-me de uma frase que aquela garota, e agora companheira, mandou por e-mail.

Era de um pensador francês com mais de 99 anos: “Sabemos que a aptidão para gozar é ao mesmo tempo a aptidão para sofrer. Se aprecio um vinho muito bom, sofro quando sou obrigado a beber um vinho que considero ruim, enquanto se não tivesse desenvolvido uma aptidão degustativa poderia muito bem beber não importa o que com indiferença”.

A frase é de Edgar Morin, em Ensinar a Viver – Manifesto para Mudar a Educação. Sem perceber, tinha acabado de realizar a reflexão do pensador francês. Ao melhorar o nível do vinho que me fez sair daquele vinho básico, fui jogado num mundo muito mais colorido. No entanto, havia o tal sofrimento da perda.

Foi uma degustação divisora de águas

Meu cérebro catalogou friamente as experiências. Tornei-me então muito mais livre para conhecer outros rótulos, outras uvas, outras regiões. Entendi que o mundo do vinho tem muitas variáveis de gosto, seja por conta de coisas da uva e do clima, seja por conta do jeito de fazer o vinho – pois, desde a plantação até a colagem dos rótulos, os produtores têm muitas opções na mão. E que se tornara praticamente impossível aquela fidelidade perdida.

Andei do tinto com ataque doce e frutado ao tinto menos alcoólico, mais gastronômico. Passei a valorizar os brancos, não apenas aqueles que são refrescantes em seu mundo cítrico e frutado, mas também os grandes e complexos vinhos que passam uma eternidade em contato com as borras finas e até, eventualmente, fazem um tour de alguns meses em barris de carvalho.

Construí toda uma adega de vinhos rosados, quase sem cor, melhores amigos de comidas que querem acidez e certo peso na taça para acompanhar alguns dos melhores pratos da cozinha internacional, como grandes caldos à base de frutos do mar (caldeirada portuguesa, bouillabaisse provençal, cacciucco do Tirreno) e também a carne suína, seja linguiça, seja porcheta. Viva o vinho e sua diversidade. Seu amor não será mais pelo rótulo preferido, mas pelo vinho em suas tantas formas de se fazer amar.