/Por Tânia Nogueira

Você ainda vai beber um vinho em lata. E vai gostar. A mais recente revolução no mundo dos vinhos não acontece nos métodos de vinificação nem na escolha dos terroirs, mas no envasamento. Desde o fim do século 19, quando as garrafas de vidro começaram a ser produzidas de forma mecânica, não se via uma novidade desse tamanho. A insurreição está só no início. Nos Estados Unidos, as latas para vinhos finos surgiram em 2004, quando a vinícola The Family Coppola lançou o Sofia Mini Blanc de Blancs.

Lá, o consumo explodiu. Segundo reportagem da Wine Spectator, de agosto de 2019 a julho de 2020, as latas movimentaram 183,6 milhões de dólares, um crescimento de 68% em relação ao ano anterior. No Brasil, o pioneiro da lata é de 1972: o Vinhas de Israel, um vinho de mesa de Minas Gerais. Os vinhos finos apareceram há pouco. Primeiro vieram alguns importados. “A força desse mercado, no entanto, é dos vinhos nacionais”, diz Felipe Galtaroça, CEO da Ideal Bi Consulting.

Levante brasiliano

Em janeiro de 2018, a vinícola Giaretta, da Serra Gaúcha, lançou o OvniH, um frisante branco e um frisante rosé. Em janeiro de 2019, três cariocas lançaram a Vivant. “A ideia inicial era fazer em garrafa de vidro, com comunicação visual jovem e que pudesse ser bebido em situações nas quais não se costuma beber vinho”, conta Alex Homburguer, presidente da Vivant Wines. “Mas, um dia, um dos sócios comprou um vinho numa festa e passou a noite segurando a garrafa numa mão e a taça na outra.

Aí pensamos: ‘Temos de arrumar outra solução’. Estudando o mercado internacional e chegamos à lata.” Miraram um alvo e acertaram vários. A lata não só faz sucesso entre os milleniuns como também representa a democratização das ocasiões de consumo. O vinho pode ser bebido na praia, no boteco, na balada. “Até em salas de cinema vendemos”, conta. Só que, em março de 2020, a pandemia inviabilizou várias dessas situações.

“Mas chegamos ao fim de 2020 cumprindo a meta”, diz Homburguer. Em 2019, a Vivant vendeu 150 mil unidades. Em 2020, quando foram lançados mais dois rótulos, a empresa vendeu 700 mil. Para 2021, a projeção é de 2,5 milhões a 3 milhões.

Ciclo múltiplo

A praticidade conquista até o consumidor doméstico. É leve, fácil de gelar e simples de abrir e vem em dose única. Combina com aplicativos de delivery de comida. É vendido com pizzas, sanduíches, empanadas etc. Possibilita que uma pessoa da família tome cerveja e outra, vinho. Têm ainda o apelo sustentável: o alumínio é eternamente reciclável.

Tudo isso leva a uma proliferação de marcas novas, com adesão inclusive das grandes vinícolas nacionais (e, ao que tudo indica, em breve também
de uma grande distribuidora de bebidas). Esse boom está ligado ao desenvolvimento tecnológico.

“No início, as latas interferiam com o produto e vice-versa”, diz a enóloga Gabriela Potter, da vinícola Guatambu, que acaba de lançar a linha Mysterius. “O vinho é um produto ácido. Corroía o alumínio.” A máquina de enlatar pode ser a mesma da cerveja, mas a lata, não. Foi necessário desenvolver uma película interna resistente à acidez.

Evolução ébria

Por não permitir a micro-oxigenação, a lata não é ideal para guarda. Brancos, rosés e espumantes menos complexos se beneficiam de ela ser hermeticamente fechada e, assim, conservar o frescor da bebida. O shelf life do produto, no entanto, não costuma passar de dois anos. A lata tampouco aguenta muita pressão. Por isso, é mais usada para frisantes. O vinho precisa ser pensado para esse envase desde o início.

“Investimos tempo e pessoal técnico no desenvolvimento dos produtos”, conta Adriano Miolo, presidente do Grupo Miolo, que está com a linha Somm em fase beta de lançamento. “Avaliamos o consumo das duas formas (diretamente da lata e colocado em diferentes taças). Delimitamos o corte e o perfil que entregam qualidade nas diferentes formas de consumo.”

Se durante a pandemia as latas já fazem sucesso, depois que tudo acabar devem bombar ainda mais. “Quando idealizamos o projeto Becas Sparkling, nosso foco estava direcionado a eventos e consumo em locais informais”, diz Lucas Simões, enólogo do Grupo Valduga.

“Redirecionamos o plano para ensinar o consumidor a desfrutar na segurança do lar, mas temos convicção de que os eventos serão fundamentais para que a marca seja propagada de forma exponencial. Por enquanto, estamos trabalhando para que seja vista como a dose diária de felicidade.”

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