/Por Malu Neves

Cultivar boas companhias enquanto partilha um alimento que nutre alma e paladar em igual intensidade: são inegáveis os atributos desfrutados quando se aprecia um belo vinho em torno da mesa. Mas existe outro aspecto intrínseco: ele convida para um átimo de solitude, pede pausa e reflexão. Para chegar à prerrogativa, só mesmo um rótulo que não exige explicações e dispensa acompanhamento.

Porque, de tão bom, basta por si só. Perspicaz recomendação foi cunhada pelo maior dos enólogos italianos, Luigi Veronelli (1926- 2004), que na década de 1970 exaltou o termo “vino da meditazione” para aqueles cuja estrutura e complexidade os tornam difíceis de colocar numa refeição. São eles doces, macios e aveludados ou tintos com envelhecimento prolongado. Sabores e aromas são intensos e a história tem longo percurso.

Portanto, precisam ser degustados com calma e instigam a conexão com sua natureza. Não é por acaso a sutil correlação entre a prática ancestral da meditação e a ocasião propícia para tomar um vinho de meditação: ambos pressupõem ao homem voltar a si mesmo e a mais ninguém. “Por isso ele não combina com celular nem computador. É um vinho que traz uma inebriada gostosa e nos faz desconectar”, sugere Anna Rita Zanier.

Para essa italiana radicada no Brasil, o caminho para tal meditação não requer artifícios nem filosofia: o apreciador cria o momento próprio “para relaxar e viajar pelo puro prazer trazido pelo vinho”.

Êxtase líquido

Os vinhos de meditação são tipicamente de origem italiana – jus ao ócio prazeroso, ou seja, o dolce far niente? Nessa categoria se encaixam ícones como Passito di Pantelleria, Marsala, Malvasia delle Lipari ou Vinsanto, sem contar Barolo ou Brunello di Montalcino. A síntese entre características e qualidade da qual subentende um vinho para meditar é preservada desde 1989 por Antonino Caravaglio, à frente da vinícola orgânica que leva o sobrenome dele.

Os 20 hectares de Nino (como é carinhosamente chamado) estão distribuídos nas ilhas vulcânicas sicilianas Lipari e Salina, que, ao lado de outras cinco, fazem parte das Ilhas Eólias. Como resultado de inúmeras erupções, o solo desse arquipélago é fértil e rico em minerais, o que abençoa as castas malvasia, corinto e nerello mascalese.

Mas é o Malvasia delle Lipari, de estilo passito (uvas postas para secar e desidratar, aumentando a concentração de açúcar), que resplandece esse pedaço do Mediterrâneo. Não somente porque é eleito há anos como o melhor vinho de sobremesa pelo guia Gambero Rosso, mas porque ressuscita um território de passado glorioso.

Relatos antigos contam que alguns dos vinhos gregos mais cobiçados eram feitos com a malvasia. Só que a filoxera, no fim do século 19, extinguiu quase todas as videiras do mundo. Nos vinhedos eólios, resultou no êxodo de quase toda a população.

Supremo fluido

Há quem considere o tinto encorpado como aquele que mais carrega enredo e autossuficiência. “É um gosto pessoal. Mas, para mim, o Brunello di Montalcino é o melhor vinho de meditação, além de nos fazer enxergar a paixão do winemaker e a máxima expressão de seu trabalho”, defende Andrea Orsini, porta-voz da Frescobaldi, propriedade de oito vinícolas na Toscana cuja dinastia de 700 anos consagra uma das famílias florentinas mais nobres desde a Idade Média (digamos que Dante Alighieri era um amigo muito próximo!).

Segundo Orsini, o vinho ideal para este momento contemplativo é o CastelGiocondo 2016, cujas uvas sangiovese envelheceram por quatro anos em barricas, seguidas de mais um em garrafa. É no paladar que o buquê floral encontra nas frutas vermelhas maduras o melhor contraponto para as notas balsâmicas e de especiarias. Um rótulo digno de provocar estímulos intelectuais.

Embora o vino da meditazione peça quietude, há quem não se oponha a saboreá-lo ao lado de um ente querido. Afinal, quando a conexão entre duas pessoas é sublime, o silêncio jamais será desconfortável. Convide-se para esse brinde. Ele pode acontecer enquanto admira o pôr do sol ou no aconchego do sofá depois de uma longa jornada. Tanto faz. Acima de tudo, permita-se a pausa. Você merece.

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