/Por Breno Raigorodsky

A história do vinho mudou depois do dia 24 de maio de 1976. Naquela noite – entre alguns rótulos californianos, borgonheses e bordaleses –, um sólido júri composto de grandes comerciantes, jornalistas e produtores decidiu (sem querer!) que no topo dos melhores vinhos do mundo estavam algumas garrafas americanas – algo inédito e impensável até então.

Ainda bem que a degustação foi às cegas, senão o resultado teria sido outro. Explico: nosso cérebro não nos permite mudanças de critério tão radicais, ao menos não em um curto prazo de alguns poucos goles.

Até então, os vinhos de Bordeaux e Borgonha eram considerados os melhores do mundo e ponto.

Quem quisesse a excelência tinha de ficar com eles, deixando para o segundo lugar tantos outros grandes vinhos que já se faziam no Velho Mundo, como a Hungria dos grandes Tokai, a Itália com seus ótimos ABs (amarone, barolo, barbaresco, brunello), os portugueses do Douro, como Barca Velha, e os espanhóis como o Vega Sicília de Ribera del Duero e os Tondonia de Rioja.

Tudo ficou em suspenso com a comprovação de que os americanos eram tão bons, se não melhores, do que os franceses.

E tudo o que parecia tão sólido se desmanchou no ar.

Fim dos tempos

Àquela época, um doido australiano já fazia – havia mais de 20 anos – um vinho tão bom quanto qualquer outro do mundo, o Grange Shiraz Penfold, que ganhou de todos em provas da década de 1980 em diante.

Em 1990, a argentina Catena Zapata alçava a uva malbec ao primeiro time das grandes uvas com o rótulo Nicolas, que venceu várias provas na mesma Califórnia que derrubou os franceses.

A partir de então, os preconceitos foram caindo, fazendo com que regiões ditas impensáveis para a produção de vinhos desmentissem os maiores profissionais.

Os italianos fazem os inigualáveis supertoscanos, que, a partir das práticas do produtor histórico Antinori, quebraram todo o rigor das Denominações de Origem italianas.

Desde a década de 1980, a tropa dos grandes vinhos chilenos se destaca no cenário internacional sem limites, tendo como carros-chefes Clos de Apalta, Almaviva, Chardwick e outros.

Os espanhóis da Torres de Penèdes ganham concursos de excelência desde que chegaram a uma posição atrás do grande Château Lafitte, em 1980, da Revue du Vin francesa.

Lá, o Lafitte custava dez vezes o preço do segundo lugar, o Gran Coronas!

Conto nacional

Em 2013, fui um dos responsáveis por uma prova igualmente às cegas que desmentia o discurso vira-lata de que o Brasil seria incapaz de fazer bons vinhos.

Avaliamos cinco brasileiros, cinco chilenos e cinco argentinos, todos com preços entre 120 reais e 200 reais (no mercado de São Paulo).

Convidamos dez experts de fora da América Latina para julgar as amostras e, entre vinhos consagrados de nossos vizinhos, como Clos de los Siete, Achaval Ferrer, Errazuriz e outros, nossos rótulos ganharam o primeiro e o segundo lugares.

Foi um cala-boca àqueles que desdenhavam a produção nacional. Em 1976, quando compararam os franceses com os californianos, caiu por terra a supremacia francesa; aqui, em 2013, caiu por terra a certeza de que éramos amadores.

Passados menos de 50 anos daquele marco histórico, para o bem do vinho, dos consumidores e dos vinicultores, ninguém tem mais certeza de nada.

É líquido e certo como a água que é possível fazer vinhos maravilhosos em solos nunca antes navegados.

Steven Spurrier

Steven Spurrier (1941-2021) foi o idealizador e realizador do Julgamento de Paris em 1976. Ele era editor da revista inglesa Decanter e foi o responsável pelo prestígio dos vinhos da Califórnia no mundo inteiro.

Em 2006, 30 anos depois, repetiu a degustação de 1976 com os mesmos vinhos para entender se aqueles produtos envelheceram bem e, mais uma vez, os californianos foram melhores do que os franceses.

Nas duas degustações, quem julgou foram alguns dos franceses mais importantes no mundo do vinho principalmente proprietários de restaurantes três-estrelas.

O feito virou filme romanceado, dirigido por Randall Miller, com Alan Rickman no papel de Spurrier.

Em meados da década passada, Spurrier esteve no Brasil para liderar uma degustação de espumantes do hemisfério sul, promovida pela Ibravin e realizada na sede da Fecomércio em São Paulo.

Confira os vinhos premiados disponíveis para compra:

vinho
Itália
Região: Piemonte
2015 / 750 ml / Tinto
Crocera 2015 Dasti Supreme - Tinto
R$ 224,00
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vinho
Espanha
Região: Rioja
2016 / 750 ml / Tinto
Generacion Mc 2016
R$ 355,00
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vinho
Brasil
Região: Serra do Sudeste
2010 / 750 ml / TINTO
Lidio Carraro Grande Vindima Tannat 2010
R$ 474,00
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vinho
Chile
Região: Valle del Maipo
2015 / 750 ml / TINTO
Echeverria Quasar Wines Limited Edition Syrah 2015
R$ 204,00
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vinho
Estados-sdm-pais-Unidos
Região: Livermore Valley, California
2015 / 750 ml / Tinto
Charles Wetmore Single Vineyard 2015
R$ 235,00
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vinho
Itália
Região: Sicilia
2016 / 750 ml / Tinto
Zabu Nero D Avola 2016
R$ 86,00
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vinho
França
Região: Bordeaux
2016 / 750 ml / Tinto
Chateau Fourcas Hosten 2016
R$ 500,00
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vinho
França
Região: Bordeaux
2016 / 750 ML / TINTO
Chateau Picque Caillou 2016
R$ 636,00
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vinho
Argentina
Região: Mendoza
2017 / 750 ml / TINTO
Vinho Tinto Finca Trapezio Grand Barrel Selection Malbec 2017
R$ 105,00
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