/Por Tânia Nogueira

A gamay, antes tida como uma uva menor, hoje é a queridinha dos sommeliers. Os profissionais estão encantados com a vocação dela para produzir tintos leves e frescos e que acompanham bem a comida. Não apenas eles, os consumidores também. “Tenho clientes que só compram beaujolais”, conta Rodrigo Malizia, CEO da Cellar Vinhos, importadora que traz 40 vinhos de dez produtores de Beaujolais, a terra da gamay.

Um dos fatores que fizeram subir a procura pelos gamays de Beaujolais foi o crescimento estratosférico dos preços dos pinots noirs da Borgonha. Assim como a pinot noir, a gamay é pouco tânica e rende tintos translú-cidos bons de beber a baixas temperaturas. Também é uma cepa muito antiga na Borgonha, na França.

No entanto, não se dá bem nos solos calcários da Côte d’Or, a sub-região considerada mais nobre. Por isso, por várias vezes, a começar no século 14, foi banida das terras da localidade. “A partir daí, começou sua pecha de uva menor”, diz Malizia. No entanto, a cepa se dá maravilhosamente bem nos solos de xisto e granito de Beaujolais, que, embora alguns não saibam, é também uma sub-região da Borgonha.

Esses solos estão concentrados no norte de Beaujolais, onde estão seus dez crus: Saint-Amour, Juliénas, Chénas, Moulin-à-Vent, Fleurie, Chiroubles, Morgon, Rég-nié, Brouilly e Côte de Brouilly. Por lá, são produzidos vinhos especiais, equilibrados e complexos.

Consistência e paciência

Mesmo os crus, porém, começaram a se destacar internacionalmente há pouco mais de uma década. “O sucesso recente de Beaujolais está ligado ao boom do vinho natural e vice-versa”, diz a sommelière Gabrielli Fleming, da Cepa Vinhos.

Jules Chauvet (1907-1989), enólogo e químico, considerado o pai do vinho natural (produzido com a mínima interferência humana possível), é de Beaujolais. Foi ele quem inspirou, no fim dos anos 1970, o grupo conhecido como “a gangue dos quatro”, em grande parte responsável pela revalorização da região e da uva emblemática.

Marcel Lapierre, Jean Foillard, Jean-Paul Thévenet e Guy Breton começaram um movimento seguindo os ensinamentos de Chauvet. Além de praticar agricultura sustentável, faziam fermentação espontânea, com leveduras indígenas e sem macerações carbônicas agressivas.

Técnica criada em Beaujolais, a maceração carbônica visa a ressaltar os aromas de frutas. Consiste em colocar os cachos inteiros de uvas num recipiente vedado com dióxido de carbono. A fermentação, então, acontece dentro do bago da uva.

Reconhecimento alcançado

Mais ou menos no mesmo período, surgiu a campanha do Beaujolais Nouveau, que teve muito sucesso, mas acabou por prejudicar a imagem da região – o que explica a demora para que o mundo reconhecesse os grandes beaujolais.

Com o aumento da produção do vinho novo, a qualidade desse caiu e a região foi associada a vinho barato, com aroma de banana e chiclete de tutti-frutti. Com a alta dos preços da Borgonha, porém, profissionais e consumidores deixaram preconceitos de lado e foram atrás dos bons vinhos de Beaujolais.

“É o estilo de vinho que mais me dá prazer de beber”, diz Gabrielli. “Pena que, hoje, já esteja ficando caro também.”O sucesso do beaujolais fora da França fez com que a gamay fosse plantada em várias partes do mundo. No Brasil, há diversos nacionais de pequenos produtores, muitos deles bons. Porém, não foram só os pequenos que se interessaram.

Em 2020, o grupo Miolo lançou o Wild Gamay Nouveau, um vinho que chega ao mercado dois meses depois da colheita, feito de leveduras selvagens e sem o uso de SO2. “O primeiro gamay da Miolo é de 1996”, conta o enólogo Miguel Almeida. “Sempre foi um vinho para ser consumido jovem.”

O Wild, porém, surgiu a partir do desafio do presidente do grupo para que a equipe produzisse um vinho sem leveduras selecionadas e sem o conservante SO2. “As leveduras selecionadas, eu já uso muito pouco”, diz Almeida. “Boa parte dos vinhos que faço é com leveduras indígenas. O grande desafio era não usar o SO2, mas, como é um vinho para beber jovem, para que conservante?” Mais uma vantagem da gamay.