/Por Rafael Tonon

Levou mais de 30 anos para que a Aguardente Vínica Velhíssima Dalva, da vinícola portuguesa C. Da Silva, finalmente chegasse ao mercado. Embora a produção desse destilado remonte aos anos 1950 e 1960 em Portugal, têm sido cada vez mais raros lançamentos dessa categoria.

Mas as marcas nunca os deixaram de lado: sabem que é uma lembrança esporádica, porém outras bebidas feitas a partir dos vinhos são uma forma de se posicionar e conquistar novos consumidores. Da uva faz-se também bagaceira, grapa, brandy, conhaque.

Em comum, são produzidos a partir da destilação do vinho branco, que pode passar por envelhecimento em barris – quanto mais tempo, mais complexo e especial, ainda que haja brandies feitos de outras frutas, como maçã.

A tradição desses tipos está intimamente ligada às garrafas de vinho: o Porto, por exemplo, que leva aguardente vínica no processo de fermentação, é uma prova de que fermentados e destilados sempre andaram juntos, ainda que os primeiros tenham representado o grande foco das marcas.

“Os destilados fazem parte de um mercado muito específico. Mas, como estamos sempre à procura de coisas diferentes e novas, eles se tornam um componente importante e podem render coisas muito interessantes”, diz José Manuel Sousa Soares, enólogo da C. Da Silva, responsável também pela marca Dalva, que produz a Aguardente Vínica Velhíssima. “Basta provar para perceber o que estou dizendo.

Provas sensoriais

A tal aguardente, cujo prolongado estágio em cascos de vinho do Porto aporta uma coloração dourada escura, tem aroma concentrado e complexo e um paladar persistente. “É algo especial, no qual o tempo presta um serviço espetacular”, gaba-se.

Tradicionalmente consumida como digestivo, tinha como alvo um consumidor conservador, que finaliza a refeição acompanhado de um cálice. Entretanto, assim como outros destilados, têm ganho o interesse de um novo segmento: o dos coquetéis.

“Para a maioria das marcas, os destilados são uma maneira de criar portfólio”, explica o sommelier português Rafael de Lima, autor do livro Wine Fundamentals. Historicamente, ele diz, as vinícolas que tinham vinho a mais acabavam por vender suas sobras para a destilação.

“Muitas agora estão mais atentas aos bares, que buscam bebidas de alta gama para suas criações”, diz. É o caso da Quinta de Ventozelo, no Douro, que desde 2017 comercializa um gim à base de aguardente vínica feita a partir de sua produção com a adição de aromáticos e compostos botânicos.

“Produzimos relativamente pouco, cerca de 15 mil garrafas ao ano, mas vemos com entusiasmo o crescimento do setor da coquetelaria para a sinergia de nossos produtos”, afirma Jorge Dias, diretor-geral da Gran Cruz, que controla a vinícola. 

Novas taças

Com a tendência crescente da coquetelaria, muitas vinícolas passaram a criar produtos especialmente para esse mercado – há até bitters feitos de uvas que seriam descartadas, por exemplo, ou coquetéis ready-to-drink, em misturas com gins e outros destilados com vinhos.

Para o sommelier brasileiro Diego Arrebola, é também uma maneira de buscar um consumidor mais jovem, em uma tentativa de renovação das marcas. Segundo ele, trata-se ainda de uma estratégia acertada em termos produtivos, como forma de trabalhar os restos e convertê-los em produtos de alto valor agregado.

“As vinícolas terão essa sobra da produção, por isso é natural que elas partam para a fabricação de um destilado porque não querem desprezar nem vender para terceiros”, diz. “O pequeno produtor aproveita tudo ao máximo até com o uso de rejeitos, enquanto as grandes empresas estão de olho em todas as possibilidades de nicho de negócio para otimizar seus lucros.”

O diferencial da maioria – independentemente do porte – é focar em produtos de alta qualidade: já que não se trata do core business (que é a venda de vinhos), quando se dedicam a criar um destilado para apostar sobretudo no posicionamento de marca, ele precisa ter uma qualidade igual ou superior aos feitos por grandes destilarias com presença internacional.

No Brasil, um dos exemplos é a Casa Valduga, que produz três tipos de brandy envelhecidos em barricas de carvalho francês durante dez, 15 ou 20 anos. Elaborados com uvas trebbiano cultivadas, fermentadas e posteriormente destiladas em alambique de cobre, os brandies passam por dupla destilação lenta a partir de um vinho de base branco. “É um dos produtos que representam o que de melhor fazemos por aqui”, acrescenta Arrebola.

Opção fermentada

Nem só de destilados vive a indústria “alternativa” dos vinhos: os vermutes também passaram a ganhar representatividade. Na Lustau, vinícola da icônica região do Jerez, em Andaluzia, vinhos como Fino, Amontillado e Pedro Ximénez são misturados a diferentes tipos de botânicos utilizados para dar perfil sensorial aos vermutes da casa: um branco, um rosé e um tinto.

“Em nosso caso, a qualidade do vinho é determinante para a bebida. Temos muito boa aceitação com relação aos vermutes que produzimos”, afirma Federico Salmerón, brand ambassador da marca espanhola. “Como bebida ou como base, o vinho é mesmo muito versátil”, acrescenta.

Para Arrebola, outras bebidas produzidas por vinícolas representam um mercado diminuto se comparado ao volume de garrafas de vinhos vendidas. Por serem em pequena escala e carregarem marcas importantes nos rótulos, precisam ser posicionadas como produtos diferenciados.

“Nesse sentido, espera-se por algo premium. Conseguir mostrar valor é fundamental.” Não só para aumentar o porte das marcas vinícolas, mas também para atrair consumidores que sabem que nem tudo o que brilha na taça é vinho.