/Por Daniel Salles

Quem já pisou em uma vinícola sabe que, para um negócio do tipo decolar, a paixão dos donos pelo mundo dos vinhos está longe de bastar. É preciso ter profundo conhecimento em enologia ou nomear as pessoas certas para comandar o plantio, o manejo e a poda das uvas, além da igualmente trabalhosa e complexa vinificação.

Também é indispensável encontrar o terroir adequado, ter intimidade com o mercado de vinhos – caso haja o intuito de lucrar –, não ter muita pressa e enterrar no negócio uma pilha de dinheiro cuja cor talvez nunca mais seja vista.

Lançado no ano passado, um fundo de investimento inglês oferece uma alternativa mais palatável para quem quer ter uma vinícola para chamar de sua, mas não a dor de cabeça para administrá-la.

Batizado com o nome de Vineyard & Terroir, ele tem como meta montar um portfólio de 50 milhões de euros composto de vinhedos localizados em regiões estelares para o mundo do vinho – Borgonha, Bordeaux, Piemonte, Champagne, Rhône e Califórnia. O objetivo é arrendar essas propriedades para produtores associados, que, depois de cinco anos, ganham a opção de arrematá-las.

“É uma oportunidade para entusiastas do vinho e instituições se conectarem com produtores famosos e ajudá-los a expandir seus domínios”, diz Simon Lurton, um dos gerentes do portfólio. “Investimentos em terras e vinhedos oferecem um raro equilíbrio entre risco e recompensas, o que é ainda mais valioso em períodos como o atual.” Um dos primeiros viticultores a se associar ao fundo é Philippe Pacalet, da Borgonha (ele é sobrinho de Marcel Lapierre, conhecido pelos ótimos Beaujolais e por liderar o movimento de vinhos naturais).

Dinheiro líquido

O retorno anual previsto para os investidores oscila entre 8% e 12%. Para sustentar a estimativa, Lurton recorre ao valor médio de 1 hectare na Borgonha usado na produção dos famosos premier crus – passou de 457 mil euros, em 2011, para 2,5 milhões de euros em 2018. “Esse é o tipo de oportunidade que procuramos”, acrescenta o gerente, que descende de uma família de viticultores de Bordeaux.

Mas não é para qualquer um: o investimento mínimo para pessoas físicas é de 200 mil euros e, para as jurídicas, de meio milhão de euros. Mais: o dinheiro não pode ser resgatado antes de cinco anos. O fundo mais antigo dos administradores ajuda a convencer quem ficou ressabiado.

Criado em 2011, chama-se Wine Source, movimentou mais de 20 milhões de euros e atingiu 23,5% de retorno – ele já não aceita novos investidores. “Nos últimos sete anos, esse fundo direcionou mais de 10 milhões de euros para os investidores iniciais”, explica Lurton. Outro argumento que costuma usar com quem acha arriscado investir no setor é o interesse cada vez maior dos chineses endinheirados pelos vinhos finos do Ocidente.

Investidor enófilo

Quem aplica no Vineyard & Terroir, convém explicar, não ganha livre acesso aos vinhedos amealhados pelo fundo. Mas os administradores não descartam a possibilidade de convidar os investidores para degustações de vinhos, jantares e almoços ou visitas comandadas pelos produtores associados. Quem não tem como ser dono ou sócio de vinícolas talvez se contente com o papel de padrinho de uma delas.

É o que propõe um clube criado por três francesas, o Cuvée Privée. O trio fez parceria com propriedades como o Château de Pressac, o Domaine d’Henri e o Château Tournefeuille e convida os associados a “adotarem” uma delas – no portfólio só constam vinícolas da França e o responsável pela seleção é Bernard Neveu, sommelier-chefe do hotel Le Bristol Paris.

Para participar é preciso desembolsar no mínimo 162 euros por ano. Em troca, o padrinho pode comprar produtos com descontos e recebe um kit de boas vindas com uma ou seis garrafas de vinhos e o convite para visitar a vinícola escolhida, entre outros mimos. No ano seguinte, ganha meia dúzia de vinhos rotulados com seu nome. “Nossos membros são amantes do vinho, mas não especialistas”, explica Aurélie Berthon, uma das fundadoras do Cuvée Privée.

Rendimentos fartos

Para quem almeja faturar alto e rapidamente com vinhos, os locais mais apropriados continuam sendo as casas de leilões. É nas mais incensadas, como Sotheby’s e Christie’s, que eles costumam alcançar cifras estratosféricas.

Foi na primeira que, cinco anos atrás, um lote com dez garrafas da safra de 1945 do Château Mouton Rothschild, uma das vinícolas mais conhecidas de Bordeaux, foi arrematado por 343 mil dólares. Representou um lucro de pelo menos 328%, já que cada garrafa era avaliada, por baixo, em 8 mil dólares.

Outra transação memorável remonta a 2007, quando a Christie’s bateu o martelo na venda de seis garrafas do mítico Domaine de la Romanée-Conti, safra 1978, por 134.750 dólares, mais do que o dobro da avaliação mais conservadora.

A compra de vinhos cujas uvas sequer foram colhidas é mais uma alternativa para quem almeja faturar nesse meio. Trata-se, porém, de um investimento de risco e que demanda muito conhecimento. Somente quando o vinho entra na garrafa, afinal, é que dá para saber se ele é bom ou ruim. Melhor deixar na mão de quem entende do assunto.