/Por Adriana Setti

Moldado em chapas de alumínio e vidro, um edifício em forma de decanter domina o skyline de Bordeaux. Às margens do Rio Garonne, ao norte da cidade francesa, a Cité du Vin é um museu que promete uma imersão sensorial no universo do vinho.

Em um espaço de 13 mil metros quadrados, 20 exposições temáticas interativas destrincham a história e a cultura da bebida, culminando no Belvedere, sala de degustação com teto forrado de taças e vista panorâmica da capital da Aquitânia.

Cercado por um jardim, o complexo ainda inclui uma concept store (com livros, peças de design e suvenires), o wine bar Latitude 20 e o restaurante Le 7, cuja adega guarda mais de 500 rótulos regionais. 

Safra do enoturismo

Inaugurada em 2016 a um custo de 80 milhões de euros, a Cité du Vin é a comissão de frente da nova fase do enoturismo de Bordeaux. Desde que o mítico Château Margaux abriu as portas ao público, muitas outras vinícolas de prestígio tornaram-se mais receptivas a visitantes, oferecendo tours guiados e instalando hotéis e restaurantes em seus domínios.

A meia hora de carro do centro, na margem esquerda do Garonne, Médoc é a sub-região mais célebre. Percorrendo suas AOCs, você verá ícones sacrossantos, como Château Latour, Château Mouton Rothschild, Château Margaux… Um dia perfeito começa com a visita do Château Montrose, um dos mais vanguardistas da região, em Saint-Esthèpe.

Depois, vale explorar o Château Pontet-Canet, nos arredores de Pauillac. Adepta dos preceitos da agricultura biodinâmica, é uma das vinícolas que optaram por “voltar no tempo”, substituindo tratores por animais, entre outros procedimentos mais gentis com o cultivo. Já no caminho de volta, almoce no La Table d’Agassac, do Château d’Agassac, onde o menu degustação é harmonizado com cinco vinhos locais.

Não deixe de conhecer as etapas de produção da vinícola, cuja sede é um verdadeiro castelo de conto de fadas, com seus telhadinhos pontudos refletidos num espelho-d’água.

Na margem direita do Garonne, a 30 minutos de trem, Saint-Émilion é o vilarejo mais encantador, tombado como patrimônio da humanidade pela Unesco. Além de produzir vinho desde os tempos do Império Romano, a cidadezinha tem a maior igreja monolítica da Europa, talhada a partir do século 9.

As ladeiras de pedras irregulares repousam sobre uma rede imensa de túneis subterrâneos, muitos deles utilizados como caves naturais. Mais de uma centena de vinícolas está aberta ao público no centro do povoado e nos arredores. Boa pedida é visitar o célebre Château Cantenac.

Depois, almoce no tradicionalíssimo Le Logis de la Cadène, aberto desde 1848 no centro histórico, ou no La Terrasse Rouge, um caixote projetado pelo arquiteto Jean Nouvel no Château La Dominique, com vista para os vinhedos e a pop star Cheval Blanc.

Reserve apetite para provar os melhores macarons do planeta, produzidos pelas irmãs ursolinas desde o século 17 – várias lojinhas vendem a iguaria.

Pequena Paris

A renovação do enoturismo aconteceu em paralelo à revitalização pela qual Bordeaux passou a partir da virada do milênio. Ao longo de 15 anos, as fachadas do centro histórico foram restauradas, convertendo la belle au bois dormant (bela adormecida) na “Petit Paris”.

Não à toa, o número de turistas passou de 2,4 milhões, em 2010, para 6,35 milhões em 2019. Com edifícios neoclássicos tinindo, a cidade teve metade do território (18 quilômetros quadrados) tombada como Patrimônio Universal pela Unesco em 2007.

A transformação ainda incluiu um sistema de transporte de ponta e a conversão de ruas congestionadas em calçadões, o que deixou os arredores da Place de la Comédie mais agradável para passear.

Tendo o glorioso Grand Théâtre como ponto de partida, é uma delícia percorrer o centro histórico, perdendo-se por lojinhas, cafés e wine bars (pausa obrigatória no Bar a Vin) até topar com o Musée d’Aquitaine, que conta a história dessa região do sudoeste da França.

Nos últimos anos, a zona central da cidade também reciclou a cena gastronômica, graças a jovens chefs vindos de outras partes do país, ansiosos por alçar carreira-solo longe dos aluguéis altíssimos (e da formalidade) de Paris.

Bons exemplares da nova safra de bistrôs são o Atelier des Faures e o Lauza. Partindo da magnífica Place de la Bourse, onde os edifícios em forma de meia-lua se refletem no espelho-d’água, uma agradável caminhada pela beira do rio leva até o Chartrons.

Ficam ali o ótimo Musée du Vin, que conta a relação entre o vinho e a cidade numa adega do século 18, e o CAPC, museu de arte contemporânea em torno do qual brotaram galerias, lojas de design e cervejarias hipsters – o pacote completo da “sohificação”.

O bairro também coleciona bons restaurantes, como o Cent 33, do chef Fabien Beauforfour, cujo currículo inclui passagens pelos estrelados Maison Pic, em Valence, e o nova-iorquino Eleven Madison Park. Um momento bacana para estar lá é aos domingos, quando as margens do Garonne fervem com o Marché des Quais.

Não é todo dia, afinal de contas, que você tem a oportunidade de degustar ostras de Arcachon e vinhos de Bordeaux numa singela barraquinha de feira.