/Por Sergio Crusco

No perfil dele na famosa rede social @per_bacchum, Antonio Calloni indica os melhores rótulos que prova. Em vídeos ou textos, comenta sobre castas, produtores e regiões de um jeito caloroso e descomplicado.

Os saberes sobre vinhos estão embasados em degustações, viagens, nas leituras e nos cursos que faz na Associação Brasileira de Sommeliers, sem que isso signifique a vontade de se profissionalizar na área.

“O conhecimento é bem-vindo, mas são mais importantes a experiência e o prazer de beber”, diz. Multitarefa, o ator e sommelier amador tem outra atividade artística: é autor de prosa e poesia, com dez obras publicadas e mais um volume de poemas que está por vir. O vinho inspira sua escrita e antecipa na boca o sabor de alguns sonhos que pretende realizar. 

Quando e como começa sua paixão pelos vinhos? 

Meus pais, nascidos em Lucca, na Itália, tinham por hábito beber vinho todos os dias durante as refeições. Era comum eu tomar um pouco de vinho misturado com água, numa época em que esse tipo de hábito não era politicamente incorreto.

Os tempos mudaram e eu mesmo nunca fiz isso com meu filho. Não virei alcoólatra por causa disso, pelo contrário, sempre tive uma relação muito saudável com a bebida. A paixão se desenvolveu mais quando fiz a novela Terra Nostra (2000). Meu personagem, Bartolo, tinha o sonho de produzir vinho no Brasil. 

Quando e por que você decidiu fazer um curso de sommelier? O que o estudo trouxe para sua relação com os vinhos? 

Ingressei na Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-Rio) em 2005, me formei sommelier amador e até hoje faço cursos e degustações. O conhecimento é sempre bem-vindo, mas são mais importantes a experiência e o prazer de beber. Se esqueço de alguma coisa técnica (o que é muito comum), recorro ao Google e pronto.

Meu Deus! Não consegui achar o mirtilo no nariz… Não estou nem aí. Alguém conseguiu? Que bom! E na boca? O vinho passou por madeira ou não? Nunca me martirizo quando alguma coisa me escapa. O vinho serve para socializar, tornar a vida mais leve, melhorar a saúde e, principalmente, sentir prazer. Vinho é alimento e prazer. Simples assim. 

O que você mais aprecia hoje nos vinhos brasileiros, entre castas, regiões e estilos? 

A evolução do tinto brasileiro é evidente e indiscutível. Nossos espumantes já figuram entre os melhores do mundo – faz tempo, isso não é mais novidade. Antigamente, os tintos eram mais desequilibrados.

O sul produzia tintos muito ácidos e os da região do Vale do São Francisco tinham pouca acidez e muita fruta. Com o passar do tempo, nossos talentosos enólogos foram aprendendo a lidar melhor com o terroir de cada região, escolhendo as castas e o tipo de vinificação para cada lugar.

Resultado: melhora sensível do nosso tinto. Alguns brazucas chegam muito perto da complexidade, da riqueza e do corpo dos nossos amigos europeus. Numa degustação às cegas, é possível errar e achar que um tupiniquim nasceu na Espanha. Isso é muito bom. Entre as regiões, sou fã incondicional da Campanha Gaúcha e de São Joaquim (SC).

Sente que ainda existe preconceito contra o vinho brasileiro? 

Existe, mas tem diminuído. Antes era comum dizer que a merlot era a uva do Brasil. Sem dúvida, essa casta rende muito bem por aqui. Já provei alguns vinhos da Miolo com merlot que são uma maravilha.

Da Don Abel também. Ultimamente, porém, quem conhece nosso vinho descobriu que as possibilidades são muitas. Temos uma variedade muito grande de castas sendo vinificadas com um resultado excelente. A Leone di Venezia tem um montepulciano que eu adoro. O futuro do vinho brasileiro é extremamente promissor.

Saindo do Brasil, quais suas preferências de enófilo? Há estilos, rótulos ou regiões prediletas? 

Gosto de todo tipo de vinho, sou bem eclético. Puxando a sardinha para o lado familiar, cito os italianos, aqueles que conseguimos “comer” com garfo e faca, de tão encorpados. Os vinhos “negros” da Puglia me agradam demais.

O Primitivo di Manduria Sessantanni é um clássico. Os Amarone são extraordinários, provei um do Quintarelli que é uma obra-prima! A diferença dos vinhos superalcoólicos do Velho e do Novo Mundo é que os do Novo Mundo têm mais fruta, têm uma maior sensação de doçura e são mais arredondados. Os do Velho Mundo têm um caráter mais rústico, são mais “errados” e mais ricos. 

Há algum projeto que você queira realizar em relação ao vinho, pessoal ou profissionalmente? Algum sonho ainda não realizado? 

Ter um rótulo Per Bacchum. Alô, produtores! 

Do que já viveu como apreciador de vinhos, consegue citar o momento mais sublime? 

Recentemente abri uma garrafa de Opus One 2013 (vinho produzido em Napa Valley, Califórnia). Comprei na vinícola, depois de ter provado algumas safras. Não existem impressões organolépticas capazes de traduzir esse vinho. 

Os meses de quarentena intensificaram sua relação com o vinho? Hoje, qual sua rotina de enófilo? 

A rotina é a mesma, a pandemia não mudou nada. Bebo de maneira saudável, uma taça por dia. Eventualmente, fico uma semana sem pôr uma gota de álcool na boca. 

Assim que pudermos circular livremente, tem algum desejo vínico a realizar? 

Quero conhecer a Borgonha. Quem sabe o bom deus Baco me abençoa com um Romanée-Conti!