/Por Breno Raigorodsky

Abrindo um barbera de Marchese di Barolo, ouvi claramente o vinho se pronunciando: “Oi, sou a barbera de sempre, a barbera d’alba, prima-irmã da barbera d’asti. Sempre fui tratada como vinho de mesa, coisa para o dia a dia, mas olha eu aqui, no meio desse vinhão!”

Corajosa, ela estava revelando o surpreendente potencial de envelhecimento, de complexidade, de fim de boca, na gastronomia. 

Vinhos falam em alto e bom som, mas normalmente dizem naquela voz quase professoral, típica dos aristocráticos em geral: “Prazer, sou um Médoc, feito de um corte das uvas cabernet sauvignon e merlot, com 1% de petit verdot. Tenho um tom herbáceo ao primeiro aroma, mas, se oxigenado, logo espalho um discreto aroma de frutas misturado com especiarias, como pimenta, mais tons de couro, fundo de caixa de charuto e chocolate, devido a longo estágio em madeira”. 

No caso daquela barbera, quanta diferença no tom, na autoconfiança, no jeitão de se expor: era uma voz ressentida, magoada por séculos de pura rejeição, jamais sendo levada suficientemente a sério.

Certo déjà-vu 

Na verdade, já tinha ouvido esse tom de voz em outras tantas garrafas, mas nunca tinha prestado a devida atenção. Pensando bem, desleixadamente tinha escutado a mesma indignação na Argentina, quando tomei um vinho de corte majoritariamente de bonarda, o Saint Felicien – um vinho que Catena Zapata fazia para o mercado interno, que não era de exportação. 

Essa vozinha reclamenta vinha de vinhos tintos, brancos e rosados, vinhos de corte ou varietais. Lembro agora de outro caso flagrante, um Côtes du Ventoux, no qual a carignan se impunha sobre as famosas grenache e syrah. Como pude esquecê-las? Como não engrossei o protesto contra a evidente discriminação que sofriam?

Cada reclamação em sua taça

Entre as uvas lamuriantes, algumas gritam para serem reconhecidas como grandes há muito tempo. Foi o que me segredou um amigo, anos atrás, ao dizer que a nerello di mascalese, aquela uva da Denominação de Origem Controlada (D.O.C.) Etna, na Sicília, estava de novo se impondo após 50 anos de ostracismo. 

O mesmo ouvi das Cavas espanholas, espumantes cuja estrutura e elegância rivalizam com os melhores do mundo, a ponto de terem sido eleitas as melhores substitutas dos champanhes no período inicial da filoxera, por volta dos anos 1860, quando já espantaram os conhecedores com sua mistura de uvas autóctones que não ficavam a dever nada para a mistura clássica e consagrada dos franceses. 

Obviamente, nem toda queixa é digna de atenção; afinal, é normal que a uva sempre queira se promover – uma tentativa de sobrevivência da espécie, certo? É o caso de algumas mais difíceis, como a cepa país, uma autóctone chilena alçada à condição de uva de primeiro nível, mas que até hoje não conseguiu me conquistar, mesmo com tantos investimentos em seu potencial de marketing.

Diálogo aberto

Se bem entendi, uvas antigas e maltratadas por séculos passaram a apresentar um novo potencial a partir de avaliações enológicas recentes, que permitia melhores expectativas a essas plantações. E, por conta de um passado não tão valorizado, saíam perdendo desde a gôndola, desde os investimentos em garrafa, tampo e rotulagem, como se apenas os vinhos de castas superiores fossem dar retorno a esses gastos. 

Se bem entendi, variedades de maior litragem por planta, que chegaram a ser expulsas de um terroir mais nobre, ganharam fôlego. Porém, ainda não conseguiram mudar seus status, apesar de resultados maravilhosos – bom exemplo é a gamay, principalmente em regiões como Morgon e Moulin à Vent, na apelação de Beaujolais, onde se mostra mais concentrada e longeva, sobretudo quando vinificada em um método que mistura a tradição da fermentação carbônica com a maturação tradicional em barricas de pouco ou nenhum uso anterior. 

Mais do que isso, as uvas menos conceituadas são constantemente abandonadas e caem no esquecimento mesmo com enorme potencial, como é o caso da portuguesa rufete, da toscana pugnetello, da negrette dos Pirineus… Não apenas elas, mas tantas outras que passaram a pedir passagem, nesta época de grandes transformações nos costumes – demonstrando, mais uma vez, que preconceitos só atrapalham, nublam a visão.

Portanto, deixo meu protesto em nome delas, em nome da ampliação do prazer e do gosto – não torça o nariz para as uvas que não conhece ou de que já ouviu falar mal. Dê novas chances: é o melhor que você faz para elas e para seu gosto.