/Por Guta Chaves

Surgida nos Estados Unidos, uma nova tendência chama atenção do mercado mundial de vinhos: rótulos com teor alcoólico baixo, em torno de 5%, mais doces e, em alguns casos, com bolhas e saborizados – os chamados vinhos seltzer.

Eles fazem parte da categoria RTD (ready to drink), as bebidas mistas prontas para beber. O crescimento da procura por esse estilo acelerou com a pandemia da covid-19, quando o consumidor, sem poder frequentar bares e restaurantes, passou a degustar mais vinhos e coquetéis em casa. Dados da International Wines and Spirits Record (IWSR) demonstram que em 2020 a procura pelas bebidas RTD cresceu 43% no mundo, prevendo um aumento médio de 21% de 2019 a 2024, disputando espaço inclusive com as cervejas. 

Mudança de hábito

Entre pessoas das gerações millennial (de 25 a 38 anos) e Z (nascidos a partir de 1995), que buscam uma mudança de mentalidade e comportamento, as escolhas estão voltadas aos produtos com perfil de saudabilidade, sem glúten, com baixas calorias e carboidratos, sendo que 58% optam por bebidas de menor teor alcoólico – em torno de 11% para os brancos e de 12% para os tintos –, como aponta a pesquisa da IWSR.

Essas gerações tendem a selecionar marcas mais descoladas e que mostram preocupação com a sustentabilidade. Procuram, ainda, praticidade, como embalagens individuais e que sejam de fácil transporte. É o caso das latas, favoráveis às mais diversas ocasiões, como balada, happy hour, piquenique e piscina. Já era de se esperar que os produtos voltados a esse público jovem tivessem uma comunicação visual mais ousada, com rótulos alegres, despojados e coloridos.

Surfando nos seltzer

Nessa onda, a Freixenet lança, entre agosto e setembro, um seltzer da marca MIA, com apenas 4,9% de álcool. “Uma forma de conquistar novos consumidores, que, com o produto, vão seguir a trilha do vinho até chegar aos rótulos centenários da Freixenet”, diz Fabiano Ruiz, diretor-executivo da marca no Brasil.

Feito à base de moscatel, adequado ao gosto brasileiro, o lançamento é vegano e tem apenas 85 calorias por lata de 250 mililitros. Numa iniciativa piloto, a empresa escolheu o Brasil, na América Latina, para o lançamento.

Na sequência, chegará ao Uruguai, Paraguai, Chile, Equador e Peru, sendo que 60% do volume está direcionado ao mercado brasileiro. Como próximo passo, em 2022, deve lançar por aqui o MIA saborizado, como maracujá e abacaxi, já comercializado na Europa. 

“Existe uma tendência forte no mundo de reduzir o teor alcoólico por uma questão de saúde pública”, ressalta André Gasperin, presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE) e enólogo da Vinícola Don Affonso, de Caxias do Sul (RS) – a marca acaba de lançar um coquetel pronto para beber, o Spritz, inspirado no clássico italiano à base de Prosecco e Aperol, com 6% de álcool. O projeto ainda pretende apresentar outros coquetéis famosos, como o Portônica (Portugal) e a Sidra (Irlanda).

Vantagem brasileira

A Serra Gaúcha, que é responsável por 80% da produção nacional, tem como característica de seu terroir o cultivo de uvas que chegam à maturação com teores de açúcares mais baixos.

Um exemplo é o espumante, a bandeira da região, vinho que por si só já tem baixa graduação alcoólica. É do Vale do São Francisco que vem um dos vinhos de menor graduação alcoólica da Miolo, e também um dos mais vendidos da marca, com 2 milhões de garrafas: o Terranova moscatel (espumante natural branco doce), com 7,5% de álcool, da categoria dos vinhos leves.

Para Miguel Almeida, enólogo da Miolo, tudo o que ajuda a aumentar o consumo do vinho é positivo. “Quem começa a tomar um vinho seltzer vai evoluir para vinhos secos leves, depois mais estruturados e, seguindo pela multiplicidade de castas e regiões, é um caminho sem volta; são as iscas para nosso consumidor de vinho se tornar fiel”, avalia.

“Esse tema é bastante pertinente para o momento, em que se debate a readequação da legislação brasileira do vinho (que é de 1988), inclusive em relação às classificações relacionadas às graduações alcoólicas”, informa Gasperin. Ele ressalta que, por conta de muitas tendências surgidas nos últimos tempos, é necessária uma lei mais flexível e atualizada, alinhada com as regras das entidades internacionais do vinho.