/Por Tânia Nogueira

A maior parte dos vinhos australianos que chegam ao Brasil ainda reflete a Austrália de 20 anos atrás. São encorpados, com muita madeira e muito álcool. Isso mudou.

Hoje os vinhos australianos estão mais frescos, mais elegantes, expressam muito mais as condições dos vinhedos. Alguns exemplares dessa nova Austrália já aparecem por aqui.

A shiraz ainda é estrela, mas há garrafas de grenache, montepulciano, cabernet franc, pinot gris, vermentino, riesling… Essa diversidade é o reflexo do que está acontecendo na vitivinicultura do país.

Além da diversificação nos vinhedos, há mudanças também nos métodos de produção, mesmo no caso dos shiraz. Os produtores estão voltando para um estilo mais antigo.

“Antes de Robert Parker, o shiraz era mais elegante. Como os produtores do mundo todo, os australianos nos anos 1990 seguiram o estilo que agradava ao crítico americano. Agora estão voltando”, diz Andrew Crawford, da Wines4U.

Quando tudo ainda era mato

As primeiras mudas de vinhas chegaram à Austrália em 1788, nos navios da frota do almirante Arthur Phillip, conhecida como First Fleet (primeira frota).

Phillip foi a New South Wales para montar uma colônia penal e, lá, tentou plantar as mudas. As plantas não vingaram, porém novas tentativas acabaram tendo sucesso.

Nos anos 1820, a Austrália já tinha uma indústria de vinho e até exportava. Os vinhos de muita qualidade, capazes de competir com os europeus, vieram em meados do século 20.

Em 1951, a Penfolds lançou o Penfolds Grange Hermitage (hoje só Penfolds Grange), um shiraz com um toque de cabernet sauvignon, de muita estrutura e complexidade. A partir daí, o mercado se voltou para esse tipo de bebida, mas hoje há uma busca por novas uvas e novas regiões.

“A Austrália tem cerca de 60 indicações geográficas com solos e climas diferentes”, diz Marli Prodebon, dona da KMM, importadora que já há muitos anos traz para o Brasil uma gama grande de vinhos australianos.

“Antes, havia mais ênfase nas regiões mais quentes, que produziam vinhos encorpados, com muita fruta. De uns anos para cá, até por conta do aquecimento global, as regiões mais frias estão atraindo muitos produtores.” 

Diversidade de solo e clima

As indicações geográficas estão distribuídas por sete regiões do país. A Austrália do Sul é a maior. Ali ficam algumas das indicações geográficas mais conhecidas do público, como Barossa Valley, Eden Valley, Clare Valley e McLaren Vale (assim mesmo, como em português).

É famosa por grandes shiraz, mas produz também bons cabernet sauvignons, ótimos grenaches, blends ao estilo do sul da França (grenache, syrah e mourvedre; GSM) e brancos deliciosos, tanto chardonnays e outras castas francesas quanto rieslings secos muito elegantes.

A poucos quilômetros de Adelaide, Barossa é a região de maior destaque. Seca e quente, ali a filoxera não chegou. Por isso, há muitos vinhedos centenários.

Victoria fica na região de Melbourne. Reúne uma série de indicações geográficas, com uma grande variedade de climas, solos e altitudes. Há também uma boa diversidade de castas, tanto tintas quanto brancas. Os vinhos da sub-região Yarra Valley merecem especial atenção.

Em torno de Sydney e Camberra (capital da Austrália) está New South Wales. O clima é considerado próximo ao do Languedoc, no sul da França. Aqui a shiraz predomina, mas há também uma interessante variedade de castas menos comuns, como a palomino, a verdelho e a semillon. O destaque fica com Hunter Valley.

Em Queensland, Granite Belt tem se destacado pela ousadia de seus produtores, que investem cada vez mais em castas menos conhecidas, como tempranillo e vermentino.

Ali estão alguns dos vinhedos mais altos da Austrália, a cerca de 1.000 metros de altitude. Isso faz com que o clima seja fresco, apesar da alta incidência solar. Na Austrália do Oeste, o destaque fica com as IGs Swan District e Margaret River, que produzem alguns dos melhores cabernet sauvignons do país.

Já a ilha da Tasmânia tem chamado atenção pela qualidade de seus espumantes. “Apesar de não ter um volume grande de importação de vinhos australianos para o Brasil, hoje já há um pouco de tudo por aqui”, diz Ana Carolina Boranin, diretora de desenvolvimento de negócios da Austrade (Australian Trade and Investment Commission).

Segundo ela, a alta do dólar prejudicou as importações de vinhos australianos, que já não eram muitas. “Com as restrições da China (que era o primeiro mercado para a Austrália) às importações de vinhos australianos, é provável que eles passem a investir mais no mercado brasileiro.” Quem vai ganhar com isso, certamente, é o consumidor.