/Por Sergio Crusco

Muita gente tem a ideia de confraria como algo secretíssimo, com confrades ostentando capas vistosas, anéis brilhosos e chapéus esquisitos, desfrutando uma paixão restrita a profundos conhecedores.

Sim, existe esse tipo de confraria, mas ninguém precisa de pompa quando o objetivo é conhecer melhor o mundo dos vinhos. Entre amigos, é possível formar um grupo para degustar novos rótulos, estilos e terroirs.

“Além da interação social, a confraria deve ter como principal objetivo aprimorar a cultura do vinho”, diz a sommelière Andreia Milan, sócia da enóloga Juciane Casagrande na linha de espumantes e vinhos tranquilos Amitié.

Ambas participam de diversas confrarias, com destaque para a Divinas, que reúne enófilas há 15 anos. Fernanda Oyama, educadora infantil, há três anos montou com uma amiga a Confraria delle Donne, depois de concluir seu curso na Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo.

“O grupo começou por causa de um interesse em comum e, no boca a boca, foi crescendo. Hoje não trabalho na área de vinhos, mas a confraria me permite estar em constante contato e evolução”, diz Fernanda, que costuma reunir de 15 a 20 pessoas em cada encontro.

Andreia, Juciane e Fernanda dão dicas para quem quer montar uma confraria de vinhos ou aprimorar as atividades de um grupo já formado. O chapeuzinho fica a seu critério.

Escolha de temas

Organize degustações que permitam explorar um conceito, uma região ou um estilo de vinho. O recorte pode ser por região ou terroir: “espumantes brasileiros de Pinto Bandeira” ou “malbecs argentinos”.

Por técnicas de vinificação: “tempranillos espanhóis jovens em comparação aos envelhecidos em madeira”. Por uvas e países: “pinot noir da Borgonha, da Patagônia chilena, da Campanha Gaúcha e da África do Sul”. O céu é o limite para definir o mote.

Número de pessoas

Um encontro confortável deve comportar até 15 pessoas. Uma garrafa de 750 mililitros pode ser dividida em 15 doses de 50 mililitros, o que é suficiente para cada um entender o vinho. Juciane Casagrande sugere que as degustações não ultrapassem a quantidade de cinco rótulos: “Mais do que isso pode estressar nossa capacidade sensorial”.

Quem convidar

Interesse por vinhos é fundamental, mas nem todos têm o mesmo nível de conhecimento sensorial e técnico. Interesse por vinhos é fundamental, mas nem todos têm o mesmo nível de conhecimento sensorial e técnico. 

Quanto custa

Estabeleça, em acordo com os confrades, uma média de quanto se pode gastar por encontro. Qualquer proposta que extrapole a quantia definida deverá ser discutida e votada. Uma degustação especial de champanhe no fim do ano? Quem quiser levante a mão!

Como economizar

A confraria é uma forma econômica de ampliar horizontes sensoriais: dá para rachar aquele Chablis divino ou um supertoscano potente. “Dividindo o custo, temos a chance de conhecer vinhos mais caros que talvez não tivéssemos coragem de comprar sozinhos”, diz Andreia Milan. 

Bons parceiros

Empórios, importadoras, e-commerces ou vinícolas podem ser parceiros da confraria. Essas empresas costumam dispor de sommeliers e enólogos para dar aulas, guiar degustações e, claro, captar clientes e até fazer vendas para o encontro.

“Durante a quarentena, tivemos aulas on-line com enólogos do Rio Grande do Sul e do Chile. Foram conversas proveitosas e vamos continuar mantendo esse contato, presencial ou virtualmente”, diz Fernanda. A Sociedade da Mesa tem um projeto especial para confrades (veja no box abaixo).

Quem organiza

A tarefa de escolher os vinhos pode ficar a cargo de quem tem mais conhecimento. “É necessária alguma experiência. A ideia de cada um trazer um vinho não costuma dar certo”, diz Fernanda.

A logística dos encontros é por conta dos proativos e metódicos. Quem tem lábia pode se dar bem em negociar descontos ou facilidades de pagamento na compra de vinhos. É bom distribuir tarefas, para que ninguém se sobrecarregue.

Periodicidade

As confreiras entrevistadas recomendam encontros mensais, com data definida, tipo “a segunda terça-feira do mês”, para que todos a fixem como compromisso. “Se três ou quatro pessoas não podem participar de um encontro, paciência, vamos em frente e não desmarcamos. Melhor não perder o ritmo”, conta Andreia.

Harmonização

As organizadoras da Confraria delle Donne costumam fazer encontros presenciais em restaurantes, com um menu fechado que harmonize com os vinhos. “Escolhemos lugares que não cobram taxa de rolha, para não elevar os custos”, diz Fernanda. Em um dos jantares, a confraria harmonizou rosés com a culinária japonesa.

Projeto profissional

Vinícolas e varejistas também organizam confrarias abertas, com diferentes esquemas de participação e encontros virtuais ou presenciais. Se você não tem experiência alguma para organizar eventos e degustações, talvez seja o caso de participar de alguns encontros promovidos por essas empresas e aprender com eles antes de montar seu grupo.