/Por Guta Chaves

Há cerca de dez anos vem ocorrendo o fenômeno mundial de reaparecimento de vinícolas familiares e artesanais, o que inclui os chamados “vinhos de garagem”. Esse último – termo concebido por Robert Parker nos anos 1990 – designa os rótulos de qualidade, mas simples, em pequenas instalações, com produção limitada e técnicas que fogem dos padrões, sendo todo o processo acompanhado pelo vinhateiro, conferindo um caráter autoral.

Enquanto em alguns países da Europa os vinhos de garagem e de microproduções são reconhecidos, por aqui a tendência esbarra na legislação brasileira. Até a primeira década dos anos 2000 não existia lei que contemplasse o pequeno produtor: priorizava-se a indústria. Por conta disso, muitas vinícolas familiares desapareceram a partir dos anos 1970, como conta Lis Cereja, da Enoteca Saint VinSaint (SP).

A primeira lei a inserir a produção artesanal veio em 2014, com a inclusão das regras para o “vinho colonial” – fabricado de acordo com características e peculiaridades culturais, históricas e de cunho social da agricultura familiar, em propriedades rurais –, determinando impostos e leis sanitárias mais coerentes. Mas acabaram incluindo uma cláusula em que esse vinho não poderia ser vendido fora da propriedade agrícola.

Sonho de vinícola

Para muitos pequenos, produzir um vinho com liberdade para comercializar ainda é distante. É o caso de Guilherme Aves, que trabalha com marketing e que, como hobby, começou elaborando cerveja e, em 2016, passou para o vinho. Produz para consumo próprio na edícula de casa, em São Paulo. Autodidata, iniciou com o processo tradicional.

Mas em 2017 descobriu que era possível fazer vinho natural, abrindo mão de insumos enológicos. “Meu vinho é a própria uva”, enfatiza. Em média, obtém cerca de 500 garrafas por safra, procurando sempre testar cepas e técnicas novas.

Neste ano, entre o que está elaborando tem um espumante de chardonnay de método ancestral, um vinho tranquilo moscato de Alexandria e um claret de cabernet franc. “Meu projeto é montar uma vinícola urbana.” Mas julga precisar de uma produção com cerca de 20 mil litros para que o negócio seja sustentável dentro da legislação atual. 

Para chamar de seu

Com apenas 1 hectare, o vinhedo de Getulio Teixeira, da Finca Tuíra, começará a produzir em 2022 alguns exemplares de cabernet sauvignon e de lorena (cruzamento da malvasia bianca e da americana seyval), cerca de 2 mil garrafas no total.

“É só para poder chamar de meu”, observa. Começou elaborando vinhos para consumo próprio, há dez anos. Por ser alérgico a sulfito, queria fazer uma bebida que pudesse tomar sem lhe causar dores de cabeça – hoje, muitas pessoas sensíveis ao SO2 adquirem o vinho vinificado pelo método natural.

Localizado em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre (RS), a propriedade é registrada e o vinhedo tem certificação orgânica. Da safra de 2021, entre o que está engarrafando, constam os brancos de moscato giallo e trebbiano e os tintos de barbera e pinot noir.

Usa com parcimônia as cinco barricas de carvalho. “Boto para domar os taninos, mas não quero o gosto da madeira. Deixo no máximo seis meses.” Como meta, pensa em chegar a 4 mil garrafas. 

Suor, amor e vinho

As primeiras mudas dos vinhedos da Bettú, em Garibaldi (RS), foram plantadas pelo imigrante italiano Pietro Bettú, em 1889. Há 22 anos, o bisneto Vilmar Bettú, formado como engenheiro mecânico, retomou a produção de quatro gerações.

No pequeno vinhedo de 2 hectares, Vilmar faz questão de preservar uma parcela com as variedades americanas centenárias, como forma de manter viva a trajetória vinhateira.

Vendendo boa parte para terceiros, reserva uma amostra para produzir 200 litros apenas para degustação na vinícola, servida aos visitantes, com caráter didático. “Quero mostrar a quem vem nos conhecer que é possível ter, a partir de uvas americanas, um produto honesto, bem elaborado, com preço acessível”, diz.

O foco está na elaboração de vinhos finos, em quantidades limitadas, com uvas viníferas como nebbiolo, touriga nacional, tannat, alicante bouschet, teroldego, riesling renano etc. Uma parcela das vitiviníferas elaboradas para comercialização é guardada em garrafões para fazer assemblages futuras. No estoque, tem vinhos envelhecidos de até 15 safras anteriores.

Hoje, já com a participação das filhas Larissa e Catenca, têm como meta vinificar até 20 mil litros – atualmente, são 16 mil. “Já tive proposta de fazer parceria com um grande investidor, para produzir em quantidade, mas não quis”, conta.

Experimentar possibilidades é uma das maiores paixões desse vinhateiro, que, por traduzir suas vinhas e vinhos como uma história viva, em que passado e presente se conectam, cria vinhos diferenciados, com alma e personalidade próprias, que dispensam rótulos.

Por isso tantos o consideram o “mago do vinho”. Vivemos uma mudança de paradigma mundial nos modos de produção e consumo. “Vamos sair lentamente da fabricação em larga escala, de produtos altamente industrializados, para os feitos em proporção humana novamente”, acredita Lis Cereja, ao lado de outros especialistas do mercado.