/Por Rafael Tonon

Na parreira, um cacho alongado, pendurado a 30 centímetros do solo, chama atenção: cobertas por folhas, uvas que vão do verde-claro a um roxo quase negro, algo raro de se ver tão próximas. Mas trata-se de uma característica comum à negra mole, uma casta plantada nesse vinhedo desde 1810.

A negra mole é a única autóctone do Algarve, região ao sul de Portugal, onde a Morgado do Quintão, vinícola familiar de 60 hectares, trabalha para fazer dela a principal bandeira para seus vinhos. “Embora a uva também exista simbolicamente na Madeira e nas Ilhas Canárias, é aqui que ela mostra o potencial”, diz Joana Maçanita, a enóloga-consultora da quinta.

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Há mais de seis anos a vinícola desenvolve projetos também em outras propriedades do Algarve, famoso pelas praias paradisíacas e pelo fluxo turístico, para despertar um potencial esquecido por décadas.

Sim, porque, apesar de ser uma área vinícola pouco conhecida – se comparada ao Alentejo ou ao Douro, por exemplo –, o Algarve tem longa tradição em vinho, desde que os fenícios introduziram castas antigas e processos ancestrais de vinificação na Península Ibérica, por volta de 2000 a.C. “Eu sei que é difícil pensar no Algarve das praias como uma região de vinhos; as pessoas não têm esse chip na cabeça.

Mas, na altura dos anos 1800, por exemplo, essa área abastecia o Douro com relação à exportação dos vinhos, sendo um grande fornecedor de uvas para o norte”, diz Joana.

Quando a filoxera chegou com força à Europa e atingiu também as plantações em Portugal, o Algarve continuou produzindo uvas por mais tempo porque levou mais tempo para ser afetado pela enfermidade. “O solo arenoso daqui era mais difícil para a praga, o que ajudou a região a ter uma sobrevida”, detalha.

Despertar enológico

Prova da tradição adormecida é o próprio projeto da Morgado do Quintão: há, entre os 13 hectares de vinhas, algumas com mais de 80 anos, um indício da produção longínqua. Quem cuidava das parreiras ainda em produção era uma tia-avó do atual proprietário, Filipe Caldas de Vasconcellos, quinta geração da família.

A mãe dele também se dedicou a seguir com o cultivo das uvas, o que o levou a dar uma nova cara ao projeto em 2016, quando assumiu a fazenda. Na quinta, nenhuma vinha foi retirada nem introduzida até o momento.

“Quisemos trabalhar desde o início com castas autóctones ou que têm relação com a história do Algarve. Quando contei essas minhas intenções para a Joana, ela logo se animou e aceitou me ajudar no projeto”, conta Vasconcellos, que hoje produz 12 rótulos distintos, predominantemente feitos com as castas negra mole, castelão e crato (que está presente em 80% dos brancos), mas também com arinto, monvedro e moscatel

Mas é a negra mole – que pode ser comparada à pinot noir por produzir tintos frutados, ser base de espumantes, mas ainda assim ser muito mais resistente – que faz brilhar os olhos de ambos. “É uma casta muito especial, quase em extinção. Ela representa menos de 0,1% das vinhas plantadas no Algarve, mas faz vinhos fantásticos”, afirma Joana.

Na Morgado do Quintão, 7 hectares são dedicados à cepa. Aos poucos, outros produtores do Algarve buscam recuperá-la, juntamente com a tradição algarvia nos vinhos. Quando iniciou o projeto, Vasconcellos diz que havia pouco mais de uma dúzia de produtores no local. Hoje, cinco anos depois, são quase 50.

“O Algarve tem crescido muito nesse sentido”, afirma ele. “Há um movimento de acreditar no Algarve e perceber o potencial da região”, complementa Joana Maçanita. “Nós queremos que o território se eleve e que mais gente faça vinhos melhores aqui, para torná-los reconhecidos. Acho que a mente das pessoas deixou de ser pequena: há um mundo amplo de vinhos a ser descoberto”. 

Resgate ancestral

Na metade do século passado, o crescimento e a concorrência dos setores de construção e do turismo na região reduziram gradativamente a produção e a imagem de vinhos do Algarve. “A cultura dos empreendimentos fez com que os vinhos e a parte agrícola fossem deixados para trás”, explica o sommelier Rodolfo Tristão, autor do livro À Descoberta do Vinho.

Ele afirma que a retomada tem sido rápida, com grandes produtores apostando alto no potencial algarvio, como o Barranco Longo, a Quinta dos Vales e, mais recentemente, a Avelleda (conhecida vinícola da região de vinhos verdes).

“As pessoas voltaram a olhar para a agricultura, para os vinhedos. Olhar para as vinhas velhas e procurar fazer vinhos que traduzam a região”, acredita. “Também houve um investimento em castas internacionais, como syrah e viognier, que permitem que as pessoas menos conhecedoras criem uma identificação com os vinhos.”

O grande trunfo, na visão dele, está no enoturismo: a cada ano, o Algarve se consolida como o destino de portugueses e turistas de muitas partes do mundo em busca de dias ensolarados. Com a pandemia, o turismo rural – e as visitas às vinícolas – foi potencializado.

“Já há produtores sérios a investir nessas estruturas e, principalmente, a fazer vinhos com identidade, que representam bem o terroir local, o que é o mais importante”, diz. Ainda faltam alguns anos para que o Algarve possa ter o mesmo destaque nos vinhos.

“Esse trabalho de resgate, ajudado pela natureza única e pelas castas autóctones, pode dar um impulso importante para a região”, conclui Rodolfo Tristão. E fazer brilhar mais forte os rótulos algarvios aos olhos do mundo. 

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