/Por Cristina Bielecki

A história dele com o mundo do vinho começou quando ele, até então um publicitário, escrevia uma coluna com dicas e curiosidades sobre a bebida na extinta revista Playboy (Editora Abril).

De lá para cá, já se passaram 23 anos e a paixão cresceu. Hoje, com um site próprio, Didu Russo traz novidades, degustações, entrevistas, artigos e matérias para iniciantes e profissionais, já ministrou mais de 200 palestras, tem dois livros publicados e posts diários nas redes sociais. Sem contar que é uma figura de pessoa! 

Você lembra qual foi o primeiro vinho que tomou? 

É uma história divertida, na qual muita gente não acredita, mas eu bebi vinho antes de mamar na minha mãe [risos]. O meu avô era português – o pai da minha mãe –, e naquela época os nenéns ficavam no quarto da mãe, não tinha berçário. Ele trouxe uma garrafa de vinho do Porto da quinta do pai dele.

Ele falou: “Hoje vou abrir essa garrafa, não quero saber…”. Todo mundo brindou e meu avô pegou uma colherinha de chá e botou na minha boca, uma coisa que muita gente achou uma loucura. Eu quis depois fazer isso com meus filhos e ninguém deixou. Acho que foi meu batismo para estar hoje no vinho.

Você trabalhou no mercado publicitário e, hoje, faz parte do mundo do vinho: tem um site, escreve matérias, faz palestras… Como tudo isso se desenvolveu? 

Eu trabalhava na Editora Abril e comecei a dar umas pequenas dicas numa seção da Playboy chamada Insiders. Naquela ocasião, já gostava de vinho e costumava dar umas dicazinhas. Fui lendo, estudando, até que, num belo dia, me enjoei da publicidade – ficou muito chata, muito técnica, muito corrupta, perdeu o glamour que tinha no meu tempo.

Então joguei tudo para o alto e falei: “Vou viver do vinho”. Em 1998, montei um bar de vinho, mas deu tudo errado. Só que lá nasceu a Confraria dos Sommeliers, que eu fundei, e também meu curso que virou livro. 

Vinho bom e vinho barato andam juntos? 

Acho que o vinho bom não tem a ver com ser caro ou barato. Se alguém tiver a sorte de ter o gosto para vinhos baratos ou achar um vinho que é bom e barato, é um felizardo. Cada vez fica mais caro! O Brasil é complicado, com muita burocracia, um câmbio terrível, muitos tributos…

E o vinho só encarece. Agora, acho que é bem possível vinho bom e barato andar junto, acho, sim. Sempre recomendo as linhas de entrada das grandes vinícolas brasileiras, porque penso que surpreendem positivamente.

Comparadas com os vinhos importados baratinhos, não há nem o que discutir. Você sempre indica vinhos abaixo dos 50 paus – que, aliás, é uma das seções de seu site. Como faz essa seleção? Degustando! Sempre que tem um vinho abaixo dos 50 paus, eu costumo comprar e experimentar.

Se é bom, eu indico – mas está ficando muito difícil. Para ter ideia, outro dia fui pesquisar alguns que tinha divulgado quando comecei. Hoje, custam 250 [reais]! São cinco vezes mais do que custavam. O importante é que o grande público está nessa faixa, a gente não pode esquecer isso.

O Brasil é complicado, não há volume de cliente com capital para tomar 200 reais ou 300 reais de vinho por mês. Tem de ser abaixo de 50 paus, e aí a vida fica dura.

O grande sonho de muitos entusiastas é provar vinhos raros, mas nem sempre é possível comprá-los. Existe um jeito de conhecer um pouco sobre esses vinhos? 

Existe para quem for do meio. Para quem é leigo, é difícil. Na minha posição de colunista, com muitos anos nas costas, imagine: já são cerca de 400 vinhedos que eu visitei no mundo, degustei mais de 33 mil vinhos tecnicamente e sempre tenho grandes chances – pode dar a sorte de cair na sala de Jean-Michel Deiss, na Alsácia, e provar umas maravilhas de 80 anos de idade. Ou quando acontecem grandes eventos. Não tem outro caminho, senão tem de pagar muito caro ou ter um amigo rico que abra esses vinhos. 

Tem como desconfiar se o vinho é contrabandeado ou falsificado? 

Normalmente, vinho contrabandeado é aquele que vem como um negócio da China. Eu sempre digo que negócio da China é só na China. Precisa desconfiar de vinho que está mais barato do que o importador oficial oferece.

Um amigo que trouxe de viagem é uma coisa. Basicamente, não pode custar muito barato, nem pode não ter contrarrótulo. Sempre digo: “Não queira ser um malandro porque você acaba sendo passado para trás”.

Você bebe vinho todos os dias? Qual foi o de ontem? 

Sim, bebo vinho todos os dias e, normalmente, não é um vinho só. Pois eu recebo, provo e [a garrafa] fica lá na mesa. Vou experimentando em dias diferentes, para ver como evoluiu.

Ontem teve uns três vinhos, mas o principal foi um fabuloso de um cara que eu mais admiro, que é o Nicolas Joly. Tinha um Les Vieux Clos – que, apesar do nome, é o vinhedo mais novo. Ele tem três vinhedos: o Coulée de Serrant, que é o crème de la crème; o Les Vieux Clos e o Clos de la Bergerie – são uma escadinha de um para outro em idade de vinhedos. Estava soberbo.

Para ter uma ideia, ele recomenda abrir com um, dois, três dias de antecedência. Essa é aquela coisa de vinho biodinâmico na raiz. Uma vez ele fez um teste com o Coulée de Serrant, que é o melhor vinhedo dele, de chenin blanc, biodinâmico do Vale do Loire em Savenière, que tem mais de 130 clones que aconteceram naturalmente no vinhedo. Nesse teste, ele abriu e degustava todo dia e anotava – o vinho ficou vivo até 15 dias depois de aberto, e ele considerou o auge no sétimo dia.