/Por Ana Beatriz Miranda

Você já deve ter percebido que vinhos elaborados com uma mesma uva podem ser totalmente diferentes. O clima é fator primordial para essa variação. Vinhos de clima quente e clima frio têm estilos influenciados pela temperatura e incidência solar.

Especialistas dizem que as melhores regiões para se produzir vinho são as que ficam entre os paralelos 30º e 50º de latitude, zona de clima temperado. Os locais mais próximos da linha do Equador são chamados regiões de clima quente, quase tropicais. Os mais distantes são considerados de clima frio. Mas não é apenas a latitude que influencia no clima. A altitude também é importante. Logo, áreas com relevo elevado são mais frias que as que ficam em vales de rios.

Diferenças básicas

Em climas quentes, as temperaturas costumam ser mais consistentes. As uvas amadurecem mais rapidamente e concentram mais açúcares. Em compensação, a acidez natural diminui. Os vinhos costumam ser mas frutados, com aromas de frutas maduras, e menos ácidos.

Já nos climas frios, a média da temperatura é mais baixa e a amplitude térmica é maior. Assim, o amadurecimento das uvas é mais lento, porém a acidez é preservada. Os vinhos costumam ser mais frescos e menos adocicados.

Mas não é apenas o clima que interfere nas características das uvas. Solo, ventos, manejo das videiras também são fatores influenciadores.

Um mesmo país produtor pode ter regiões de clima quente e de clima frio. No Chile, o Vale do Maipo é considerado clima quente, enquanto o Vale de Casablanca é de clima frio. Na Itália, o norte é frio e o sul quente. Mais detalhadamente, uma mesma área pode ter microclimas que variam entre mais quente e mais frio.

Os países popularmente de clima quente são Argentina, Brasil, Uruguai, Austrália, as regiões de Napa Valley, nos EUA, Sicília, na Itália, Alentejo, em Portugal e Catalunha, na Espanha. As áreas de clima frio mais conhecidas são Champagne, na França, Mosel, na Alemanha e Nova Zelândia.  

Vinhos de clima quente

De forma geral, os vinhos de clima quente são mais estruturados do que os de clima frio. A maior quantidade de açúcar se traduz em mais dulçor e maior teor alcoólico. Os tintos são mais encorpados, com aromas de frutas vermelhas e negras maduras. É possível sentir especiarias, frutas secas e chocolate. São exemplares poderosos e carnudos.

O desafio dos produtores de clima quente é balancear esses aspectos preservando certa acidez, para um rótulo equilibrado.  

Vinhos de clima frio

Os vinhos de clima frio, genericamente, são mais refrescantes porque a acidez das uvas é mantida. Eles têm menos açúcares e menor potencial alcoólico. Os aromas são de frutas frescas, além de notas herbáceas, terrosas e apimentadas. São exemplares menos robustos, mais sutis e delicados.

Os enólogos de clima frio devem se atentar para que o vinho não se torne ácido demais ou com aromas e sabores pálidos, equilibrando os níveis de dulçor para maior expressividade.

Mudanças climáticas

O aquecimento global é uma realidade que tem alterado a colheita das uvas e suas características naturais. Não é muito difícil encontrar um vinho tradicionalmente de clima mais frio, como Bordeaux, com um teor alcoólico alto, similar ao de um vinho do Novo Mundo.

Com o aumento das temperaturas, muitos produtores têm colhido as uvas antes, evitando a perda excessiva da acidez e a concentração exacerbada do açúcar. Por isso, está cada vez mais complicado perceber um vinho de clima quente ou frio por seus aromas e sabores. Pode ser que no futuro essas definições tenham de ser reavalidadas. Mas essas são cenas dos próximos capítulos.