/Por Pedro Borg

Consideradas o “dinheiro do futuro”, as criptomoedas são vistas por alguns como uma abstração, algo que não existe fisicamente e pode desaparecer a qualquer momento. Porém, se você não pode ter um bitcoin ou um ethereum em sua carteira da mesma maneira que você guarda reais ou dólares, empresas criam opções para trazer a fisicalidade ao mundo das moedas digitais, e da melhor maneira possível: por meio de vinhos.

A empresa I-Factor lançou, em dezembro de 2020, o Italian Wine Crypto Bank (IWCB), uma mistura de emissor de criptomoedas com um clube de fidelidade de vinhos italianos. A ideia do banco é lançar uma moeda digital lastreada em rótulos de vinhos de vinícolas italianas parceiras.

Cada pessoa que possui um IWCB tem direito a participar de um clube de consumidores do banco. Segundo a criadora da moeda e produtora de TV italiana Rosario Scarpato, o banco tem três pilares: produtores de vinho, entusiastas da bebida e investidores.

“Nosso banco criou um algoritmo para selecionar vinhos de produtores com quem temos parceria. Olhamos para 17 fatores, como facilidade para beber, longevidade do vinho, sua habilidade de manter o valor, reconhecimento de críticos, entre outros.

O projeto é baseado em três pilares: as vinícolas, as pessoas que compram a moeda para ter as bebidas em suas adegas e outros que adquirem as moedas como maneira de investimento”, disse Rosario durante um webinário de que participou e explicou a iniciativa.

A IWCB justifica o lastro em vinhos italianos em seu site, no qual diz que, nos últimos dez anos, o valor de revenda de vinhos italianos cresceu em uma taxa anual de 28,5%, enquanto a valorização de vinhos de outras regiões aumentou em média 9% no mesmo período.

A ideia é que, no futuro, a IWCB libere a compra diretamente entre donos da moeda digital e vinícolas parceiras, já que, no momento, os rótulos disponíveis são aqueles selecionados e armazenados pelo próprio banco.

Negócios abertos para criptos

Quem também está se aventurando no universo das criptomoedas é a Mondavi, clássica vinícola californiana que hoje é comandada pela quarta geração da família, que decidiu que a marca vai aceitar pagamento via moedas digitais em vinhos de suas marcas Aloft e Dark Matter.

A justificativa para a novidade é abrir um novo meio de pagamento para a empresa e também aderir a novas práticas do mercado, já que casas de leilão estão começando a aceitar criptomoedas como pagamento. Apesar de ser uma das pioneiras no assunto, a iniciativa da Mondavi deve ter pouco impacto nos negócios, segundo avaliação de Rodrigo Lanari, fundador da Winenext, assessoria especializada em vinhos.

“Isso [aceitar bitcoins] me pareceu mais algo para chamar atenção pela inovação do que pela viabilidade. Vinícolas são um negócio de capital intensivo e as criptomoedas me parecem uma ferramenta ligada ao capital especulativo,” diz Lanari.

“Não consigo ver um produtor indo para esse caminho [das criptomoedas], e vejo ainda menos perspectiva no Brasil, onde as inovações demoram a chegar e as maiores empresas do setor são familiares e dependem da venda dos vinhos não como investimento.”

Lanari também lembrou o método de venda en primeur, um hábito que começou em Bordeaux e que prevê a comercialização dos vinhos antes de serem engarrafados, como uma maneira de a vinícola ter o dinheiro da venda dos produtos antes que eles sejam colocados nas prateleiras para a distribuição geral, garantindo liquidez para a empresa

Proteção antifraude

Apesar de a aderência por criptomoedas no mundo dos vinhos ainda ser baixa, há outro aspecto nelas que pode mudar o mercado: o blockchain. Uma criptomoeda só é segura pois é feita através de um blockchain, um tipo de registro digital imutável que garante a segurança das moedas digitais, evitando que elas sejam copiadas, já que cada blockchain tem um registro único.

Essa tecnologia é importante no mundo dos vinhos devido ao NFT, registro permanente e não copiável (chamado de token). E por que isso pode mudar o mundo dos vinhos, especialmente aqueles de colecionador? Algumas vinícolas já começam a vender vinhos mais exclusivos acompanhados de um NFT, transferido da vinícola para o comprador, que contém todas as informações do vinho, da safra ao número de série.

Caso esse hábito comece a ser difundido, o processo de autenticação de bebidas raras pode passar a ser simplificado, sendo necessária apenas a apresentação do NFT para que o vinho seja atestado como verdadeiro.

A massificação de NFTs no mundo dos vinhos de colecionadores pode fazer voltar um hábito antigo, mas que foi deixado de lado conforme aumentou o número de casos de falsificação de bebidas: a troca de rolhas.

“Antes, aos donos de grandes vinhos era oferecida a possibilidade de trocar a rolha pela própria produtora, que levava especialistas à casa dos clientes para abrir o vinho, servir um pouco da bebida e então repor o líquido na garrafa, que seria fechada com uma nova rolha. Por conta dos vários casos de falsificação, produtoras deixaram de oferecer esse serviço”, explica Lanari. “Se o NFT se provar como uma garantia contra falsificações, os serviços de troca de rolha poderão voltar.”