/Por Marjorie Zoppei

Em 1973, o italiano Massimo Galimberti foi um visionário quando apostou na venda de vinhos a distância, com entrega domiciliar, na Espanha. Quase 50 anos depois, o filho mais velho dele, Carlo Galimberti, assume a presidência do grupo Vinoselección, que é, hoje, considerado o maior clube de vinhos da Europa.

Nascido em Londres em 1968, Carlo se formou em gestão pela École Supérieure de Commerce de Paris (ESCP) e começou a carreira em uma companhia americana de consultoria. Ele se juntou à empresa da família em 1997 e foi o responsável pela expansão internacional dos negócios, incluindo Uruguai, Argentina, Canadá, Peru, Itália e Brasil – onde a Sociedade da Mesa já atuava desde 2003, mas que desde 2018 é parte integral da empresa espanhola. 

Quando e como nasceu a Vinoselección? 

Nasceu em 1973, há quase 50 anos. Foi criada por meus pais ao chegarem à Espanha, pois eles viram que não podiam conseguir os vinhos que apreciavam antes, em Londres. Já existiam serviços de clube em outros países, mas na Espanha não.

Pareceu natural oferecer ao público a possibilidade de comprar vinhos que não fossem da própria região. Os moradores de Rioja bebiam vinhos da Rioja, mas os moradores de Sevilla, por exemplo, não tinham acesso aos vinhos do norte. 

Recentemente, você assumiu como presidente do grupo Vinoselección. Quais são os desafios e as metas que vai enfrentar em curto prazo? 

A jornada para chegar à presidência não foi tão rápida e simples assim. Além do fato de trabalhar na empresa há 24 anos, fiz a proposta de mudar o tipo de governança e assinarmos um protocolo familiar.

Esse documento estabelece os limites e as regras para a administração da companhia, como, por exemplo, propondo as condições para a tomada de decisões ou para trabalhar na Vinoselección.

Criamos então dois conselhos: o da família e o conselho de administração, do qual sou o presidente. Nesse conselho, participam mulheres e homens profissionais com talento e que não pertencem à empresa. Como presidente, tenho três desafios: a estabilidade e o crescimento da empresa, econômica e financeira, a adaptação dos recursos humanos aos novos desafios e a transformação digital. 

Quais são as principais diferenças de um clube de vinhos na Europa e na América Latina? 

Acho que a diferença, na verdade, fica entre os países produtores e os importadores. No caso dos produtores, o rol do clube de vinhos é principalmente o descobrimento de vinhos butique, difíceis de conseguir no mercado. Isso pode se tornar mais complicado no Brasil, onde o público dos clubes pode inclinar-se em favor de rótulos mais identificáveis, seja pelo tipo de uva, seja pela origem. 

Em um plano de expansão, a Vinoselección entrou no mercado inglês e peruano, dois países que não têm uma filosofia enológica. Qual foi a oportunidade que vocês enxergaram nesses países?

No caso do Reino Unido, entramos em 1992. Tenha em consideração que o vinho espanhol era já um dos principais vinhos importados. Existiam revistas, guias, livros… Enfim, muita literatura sobre o vinho. E o público pedia o acesso a tudo aquilo que lia e, em grande medida, conhecia.

Existiam clubes (o maior do mundo é um clube inglês, justamente), então a ideia de serviço e da informação de qualidade já existia. Num mercado dinâmico como o inglês, faltava uma proposta específica de vinho da Espanha só.

No caso do Peru, que abrimos no ano de 2016, fizemos também um estudo de mercado, mas as premissas eram diferentes. Aqui, a população com acesso ao vinho, economicamente falando, é muito mais reduzida, mas esse cliente está disposto a pagar mais e gosta dos vinhos premium.

Como surgiu o interesse de investir no mercado brasileiro? 

Não foi o resultado de uma pesquisa. Pelo contrário, foi um encontro e uma intuição. Penso que meu pai, que já falava português, gostou da ideia de começar uma aventura num território, digamos, virgem.

Não tinha clubes de vinho no país, e a proposta que fizemos, junto com o fundador, Dario Taibo, funcionou. O sucesso foi justamente uma fórmula exclusiva para associados que, a cada mês, recebiam as promoções do clube.

A Sociedade da Mesa produz ainda essa informação, que permite afrontar a garrafa sem receios, contar sua história e compartilhar momentos com conhecimento e prazer. 

Qual é a interferência da Vinoselección na Sociedade da Mesa? 

A Vinoselección tem uma participação majoritária no clube. Nosso sócio aqui é um profissional que conhecemos bem e em quem confiamos e que confia em nós.

Isso me permite desenvolver meu trabalho como diretor internacional, seguindo de perto o negócio com o Stéphane Kaloudoff, o CEO da Sociedade da Mesa, e toda a equipe. A cada mês, tenho uma apresentação da evolução da empresa ao diretório em Madri.

Já teve algum case de negócio do Brasil que vocês replicaram aí na Espanha? 

Eu amo vir ao Brasil, e sempre falo do país como uma terra de oportunidades e de bons exemplos também. Infelizmente, não temos desenvolvido negócios com um modelo brasileiro. Quem sabe? 

Na visão de um europeu, qual é o maior desafio do mercado do vinho no Brasil? 

Eu diria que temos três desafios e não estamos tão acostumados assim na Europa. O primeiro é o desafio do mercado: a grande oferta de vinhos no Brasil com pouco interesse enológico, e isso distrai com frequência o comprador dos produtos melhores, que custam, às vezes, só um pouquinho mais.

O segundo desafio é financeiro: a dependência da conversão da moeda, pois a maioria dos vinhos vendidos no Brasil vem de fora e é pago numa moeda forte. Por último, tem o fator risco da intromissão das leis tributárias.