/Por Tânia Nogueira

Depois de quase dois anos trancados em casa, os europeus voltam a festejar o Dia de São Martinho, um carnaval dionisíaco que pouco tem a ver com religião. Onze de novembro é o dia desse santo que foi soldado do império romano e abandonou a carreira militar para se dedicar à vida religiosa, mas é também o dia do vinho novo. “Pelo São Martinho, vai à adega e prova o vinho”, diz o ditado popular português. Por toda a Europa, na festa de São Martinho se bebe o vinho novo.

A festa coincide com a época do ano em que o mosto se transforma em vinho, quando há o fim da fermentação. Depois disso, vem o frio intenso. Antes de haver temperatura controlada dentro das adegas, mesmo que não estivesse completa, nas regiões mais frias, a fermentação tendia a parar no meio de novembro.  Não por acaso, a festa é próxima da data de lançamento anual do beaujolais nouveau, por exemplo. 

É uma festa importante no calendário de boa parte dos países europeus. As tradições e as lendas que a cercam, no entanto, variam muito. Em alguns países, São Martinho é o padroeiro do vinho.

Em outros, está mais para um bêbado do que outra coisa. Segundo a igreja católica, nascido em 316d.C., Martinho foi um homem dedicado à caridade. Ainda quando soldado, num dia muito frio, teria partido o seu manto em dois para agasalhar um mendigo. 

Conta a lenda que, logo após ter feito isso, abriu-se o sol e o tempo esquentou. Por isso, ao veranico que costuma ocorrer em novembro (um leve aumento nas temperaturas médias antes de despencarem de vez), os europeus costumam chamar de Verão de São Martinho

No Alentejo, em Portugal, o dia de São Martinho, por tradição, é o dia de abrir as tradicionais talhas de barro, de fazer fogueira, de assar castanhas ou belotas e tomar o vinho da talha. Fazer vinhos em talhas grandes de argila enterradas no solo é a forma tradicional de vinificação na região.

Esse costume, que foi se perdendo aos poucos, hoje é resgatado por uma série de vinícolas, como a Paulo Laureano Vinus, a Fundação Eugénio Almeida, a Lusovini e a Herdade do Rocim, que hoje fazem vinhos de alta qualidade (e preço idem) em talhas de barro

Em torno do dia de São Martinho, na região, há vários eventos ligados à abertura das talhas. Na Herdade do Rocim, por exemplo, no próximo sábado, dia 13 de novembro, vai acontecer o Amphora Day. O evento reunirá várias vinícolas do Alentejo e de todo o mundo que produzem vinhos em ânforas.

No norte de Portugal, as comemorações do dia de São Martinho lembram muito às do Halloween. As crianças saem às ruas pedindo doces. No norte da França, elas também fazem isso e, ainda, carregam lanternas esculpidas em beterrabas.

Vão atrás de um homem vestido de São Martinho, que puxa um burrico, e cantam: “São Martinho bebe vinho na rua dos Capuchinhos. Ele bebeu tudo. Mandaram ele embora com uma vassourada”. Apesar de ligada à Igreja católica, a festa em muitos lugares é um carnaval cheio de excessos. Está ligada às festas pagãs que marcavam o fim da colheita.

Na Itália toda, há festas e feiras mostrando os produtos típicos da região. Como nos outros países, o vinho novo também está presente nessas festas e feiras. Há também castanhas e fogueiras.

No Piemonte, costuma-se reunir a comunidade em torno de uma bagna caoda (um creme de anchovas, alho e azeite quente, no qual se banha vegetais como num fondue).

Até a famosa Feira Internacional de Tartufo Bianco d’Alba foi um dia uma feira de São Martinho que, por lá, se chama San Martino. Dizem, aliás, que a noite de San Martino é a melhor para a caça das trufas, que estariam no seu ponto ideal.

Experimente vinhos de talha

Cartuxa Curtimenta Branco – Um corte de arinto, roupeiro, malvasia rei, fernão pires e trincadeira das pratas, custa R$ 664,07, na Adega Alentejana

Rocim Fresh from Amphora Tinto – Vinho natural. Corte de Moreto, Tinta Grossa e Trincadeira, sai por R$ 207,75, 1 litro, na World Wine