/Por Adriana Setti

No comando da locomotiva do Lavaux Express, Jean-Marc é o retrato de um homem feliz. Acenando e sorrindo para todos os que cruzam o caminho, ele trabalha como voluntário de uma associação cuja nobre causa é tornar o enoturismo mais lúdico na região produtora de vinhos eleita como a mais bonita do mundo pela revista Forbes.

Com jeito de atração da Disney, o trenzinho turístico ziguezagueia por um cenário tão radiante quanto a alegria de seu “maquinista”. Na margem norte do Lago de Genebra (ou Lac Léman), cristalino e azulíssimo, os vinhedos de Lavaux ocupam 10 mil terraços que formam um vertiginoso anfiteatro com vista para os Alpes.

Entre a belíssima Montreux e Lausanne, na parte francófona da Suíça, são 760 hectares de vinhas que se equilibram em uma encosta radicalmente íngreme, em um cenário que começou a ser esculpido pelo homem há quase mil anos, pelas mãos dos monges cistercienses. 

Mais belo não há

“Passei décadas explorando zonas vinícolas; Lavaux é, de longe, o destino mais charmoso que já visitei”, escreveu a jornalista especializada em vinhos Katie Kelly Bell, da revista Forbes. Localizada no cantão (estado) de Vaux, a região foi tombada como patrimônio cultural da Unesco em 2007.

Apesar do renome, você dificilmente encontrará garrafas de seus chasselas, pinot noir e gamay para vender fora do país: quase 95% da produção é consumida localmente. Repartidas em pequenas propriedades, as terras de Lavaux são cultivadas por cerca de 200 famílias de tradição secular na viticultura, dispensando o uso de máquinas, com exceção dos discretos elevadores que ajudam no sobe e desce de uvas, em um terreno onde a inclinação chega a 45 graus.

É o caso da Cave de Moratel, onde Sylvie Longet-Voruz trabalha ao lado do marido. “Na época da vindima, contratamos cerca de dez pessoas, mas no resto do ano estamos sozinhos”, conta a enóloga, que representa a terceira geração de produtores de vinho de sua família. Entre o trabalho na terra e no modesto galpão onde estão os tanques de fermentação, ela recebe visitantes pessoalmente, para degustações acompanhadas de queijos, frios e um bom papo. 

Em direção aos trilhos

Cully, de onde zarpa o Lavaux Express, é um bom ponto de partida para explorar a região, pontilhada de vilarejos charmosos, como Saint-Saphorin e Epesses, e sub-regiões como Calamin e Dezaley, que têm o próprio status de denominação Grand Cru. No verão, seus gramados verdíssimos se transformam na praia que a Suíça não tem, repletos de moradores locais dourando ao sol, fazendo piquenique e tomando um chasselas gelado.

Quando o calor aperta, um mergulho nas águas frescas do lago é uma experiência sublime. Passeios de barco, SUP, caiaque e afins são outros hits do curto verão suíço, vivido com a intensidade de quem conhece o poder de um inverno rigoroso.

Cully está a apenas 23 minutos de trem de Montreux e o caminho é uma atração em si, com vistas dos terraços forrados de vinhedos passando. A cidade é famosa pelo festival de música Montreux Jazz Festival e por ter arrebatado o coração de Freddie Mercury com sua beleza natural estonteante – não à toa, uma foto do lago estampa a capa do álbum póstumo Made in Heaven (feito no céu).

Capital da Riviera Suíça, tem clima ameno para os padrões locais e cultiva um estilo de vida arejado, que costuma ser comparado ao mediterrâneo. O epicentro da vida social é o vasto calçadão que acompanha a margem do Léman por vários quilômetros, decorado com obras de arte e canteiros que seguem o padrão suíço de perfeição. No fim da tarde, uma luz dourada torna a paisagem ainda mais irretocável, ao passo que o Sol desaparece do outro lado do lago.

Próxima parada estelar

Uma caminhada de meia hora a partir das imediações da estação de trem de Montreux leva ao castelo de Chillon, o monumento mais visitado (e instagramado) da Suíça, materializando um cenário perfeito de conto de fadas encarapitado em uma ilhota.

A construção de forma oval tem origem no século 10, mas arqueólogos acreditam que o lugar era habitado desde a Idade do Bronze. A poucos metros do castelo, a pequena praia é um dos melhores lugares para nadar. Dando algumas braçadas, o que parecia impossível acontece: o cenário ganha um toque mais mágico com a imagem do château refletida no lago e os picos nevados dos Alpes de pano de fundo.