/Por Guta Chaves

A Associação Brasileira de Sommeliers (ABS) conceitua o profissional como o “responsável pelas bebidas (principalmente, mas não unicamente o vinho) no estabelecimento, que pode ser um restaurante, bar ou comércio – loja ou importadora de bebidas”. Ao regulamentar a profissão de sommelier de vinho no Brasil, em 2011, a lei 12467 reconhece sua importância no setor da gastronomia.

Priscila Colares, sommelière de cerveja

Mas não engloba as outras categorias de sommeliers, que vêm crescendo nas últimas décadas e merecem mérito. Foi pensando nisso que a sommelière de cerveja Priscila Colares, de Belo Horizonte, iniciou, em 2020, um pedido de regulamentação de outras categorias da sommellerie junto aos órgãos governamentais.

Yasmin Yonashiro, sommelière de saquê

Ela conta com o apoio da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abracerva) e com a participação de outros profissionais do serviço, como Mauricio Maia, sommelier de cachaça, e Yasmin Yonashiro, sommelière de saquê, ambos de São Paulo.

A iniciativa resultou na inclusão, em março deste ano, das titulações de sommelier de cerveja, sommelier de cachaça e sommelier de saquê na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), atividades que foram inseridas na função “sommelier, código 5134-10” na família ocupacional “5134: trabalhadores no atendimento em estabelecimentos de serviços de alimentação, bebidas e hotelaria”.

Mauricio Maia, sommelier de cachaça

Ligada ao Ministério da Economia, é na CBO que estão descritas todas as profissões do mercado de trabalho no Brasil. Na prática, o registro poderá ser colocado na carteira de trabalho a partir de janeiro de 2021. A ação contou com o apoio da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo (USP), envolvendo uma ampla revisão das atividades do sommelier.

Um CNAE para chamar de meu

O próximo passo é a inclusão dessas categorias de sommelier na Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). É com ela que esses profissionais poderão dar nota com a devida atividade exercida e também serem enquadrados como MEI, se assim o órgão deliberar.

Nesse caso, tanto Priscila quanto os outros sommeliers da equipe de trabalho entenderam ser melhor alterar o que já existia – o CNAE em que consta o sommelier de vinho (7490-1/99) – do que abrir outro.

Essa etapa foi enviada para a aprovação da Câmara dos Deputados, em Brasília, e tem contado com o apoio do Mapa (órgão responsável por avaliar os produtos relacionados ao agronegócio), auxiliando no entendimento dos processos governamentais. O grupo de trabalho também almeja alterar a lei 12467 para incluir, além do sommelier de vinho, as outras categorias. 

Diferentes sommeliers, mesmas funções

Guardadas algumas especificidades e o conhecimento sobre cada bebida, o sommelier exerce basicamente as mesmas tarefas, relacionadas à(s) bebida(s) que domina: atendimento a clientes em estabelecimentos que servem e comercializam a(s) bebida(s), aconselhando e informando sobre as características da(s) mesma(s); planejamento e execução de serviço especializado na(s) bebida(s); gestão de estoque e armazenamento de produtos relacionados ao serviço da(s) bebida(s); elaboração e gestão de cartas de bebida; conhecimento e avaliação de estilos da(s) bebida(s), a partir de suas especificações técnicas e análises sensoriais; harmonização da(s) bebida(s) com alimentos; coordenação e treinamento de equipes; domínio técnico de degustação e identificação das características organolépticas; consultoria técnica e assessoramento a lojas, produtores, importadores; realização de aulas ou palestras.

Stéphane Kaloudoff, CEO e sommelier da Sociedade da Mesa

“Acho positiva a formalização das outras categorias porque estimula a expansão da profissão, com especialistas para cada tipo de bebida”, opina Stéphane Kaloudoff, CEO e sommelier da Sociedade da Mesa. “Eu admiro quem tem dedicação para estudar e se aprofundar em outras bebidas que não só o vinho, que já é complexo e requer bastante estudo.” Para ele, é preciso apoiar esse mercado cada vez mais e abrir oportunidades para as pessoas que trabalham em restaurantes e bares, para que essas tenham uma evolução na carreira, com um caminho de conhecimento e de estudo, a seguir. 

Satisfação garantida

Beba menos, beba melhor. Esse é o lema da cerveja artesanal que cabe muito bem para todos os tipos de bebidas, indo ao encontro dos ganhos do público com a valorização de todas as categorias de sommeliers. Enfim, o consumidor só tem a lucrar com um serviço bem-feito, no copo certo, com a chance de ter mais conhecimento, transmitido por profissionais que passaram por uma qualificação.

O resultado é mais prazer e encantamento com uma refeição completa. “Quando se vende harmonização, o serviço dá um up, só pode ser mais gostoso para todo mundo”, comenta Priscila. É o início de uma grande conquista. A formalização valoriza a carreira, movimenta o mercado e atrai mais pessoas interessadas.

“Está sendo muito gratificante participar do processo de formalização da profissão, porque a gente está criando uma possibilidade de as pessoas entenderem que o sommelier é uma categoria que tem uma gama enorme”, relata Yasmin.