/Por Guta Chaves

Ele não é exatamente um branco, também não é tinto. É laranja! Um estilo traduzido pelo maior tempo de maceração das cascas da uva branca com o mosto – no mínimo três semanas, sendo que alguns chegam a passar de 30 dias.

É esse tempo que confere a cor alaranjada, a estrutura aromática e a complexidade peculiares, com presença de taninos, aproximando-o dos tintos.

Em voga no mundo do vinho e novidade para muitos, a produção do laranja, também chamado de âmbar, voltou à tona faz dez anos pelas mãos de vitivinicultores que buscam resgatar a cultura e a história de exemplares feitos num passado muito anterior ao século 19, data do início da enologia moderna – de uma época longínqua em que tanto brancos quanto tintos eram macerados.

O método da Geórgia, o mais ancestral (e que remete aos primórdios do vinho), utiliza cachos de uvas maduras, colocados em ânforas de terracota ovais, as kvevris, revestidas com cera de abelha e soterradas para manter a temperatura baixa.

Em seguida, o mosto é retirado e separado dos sedimentos. A fermentação acontece com leveduras indígenas. Próprios do estilo, o caráter oxidativo e o amargor não são defeitos.

Descobrimento do Brasil

Tendo chegado ao país com os produtores de vinho natural – orgânicos e com mínima interferência –, o vinho laranja acabou se popularizando depois que o Era dos Ventos Peverella 2014 recebeu 94 pontos no Guia Descorchados, referência em rótulos sul-americanos.

“Acredito que foi uma das premiações mais impactantes na história do vinho brasileiro, pois ninguém imaginava que o Descorchados fosse escolher um laranja entre toda a produção de vinhos e espumantes brasileiros”, enfatiza o enólogo e produtor Luís Henrique Zanini.

Isso fez com que a Era dos Ventos representasse o Brasil em Nova York, no lançamento do Descorchados nos Estados Unidos, com convites para expor o vinho em várias partes do mundo. “Costumo dizer que esse vinho é anárquico; com ele, a gente descobriu que a inovação estava no passado, no resgate de uma variedade e de um método de produção antigos”, observa Zanini.

Esse peverella é elaborado em Garibaldi, na Serra Gaúcha (RS), em tinas de madeira abertas. Envelhece por pelo menos dois anos em dois tipos de barricas – 50% ipê e 50% carvalho de vários usos –, o que resulta numa amplitude aromática: mineralidade, chá, floral e perfumes do amadurecimento em madeira, desenvolvendo, ainda, uma fusão de compostos mais oxidativos, reportando ao conhaque e ao Porto.

Uma das inspirações de Zanini são os laranja expressivos da Eslovênia. “A elegância deles está na junção da questão climática, com influência do mar, com uso de uvas autóctones e os métodos de elaboração tradicionais.”

Modelo e inspiração

O laranja da Era dos Ventos é referência para muitos produtores entre eles Caio Mincarone, da Cantina Mincarone, localizada na área rural de Porto Alegre (RS). Outro parâmetro foi a primeira aula dele de vinificação prática, em que participou da elaboração do laranja ribolla gialla, do Domínio Vicari. “Esse vinho deu um start na nossa produção”, relembra.

A Cantina está atualmente no mercado com os laranja das safras 2019 e 2020, entre eles os produzidos a partir de uvas manzoni bianco, de boa acidez; a gewürztraminer, que ganha em intensidade; a versátil riesling itálica, muito adaptada ao clima gaúcho; e a ribolla gialla, tradicional na Eslovênia e Itália na produção dos laranja.

Por falar em melhores uvas para produzir vinhos laranja no Brasil, Zanini tem suas apostas, que, claro, incluem a peverella – com potencial de bom período de maturação –, assim como a trebbiano e a moscato antiga.

“As três são variedades tardias, importantes para a região da Serra Gaúcha, com películas que têm capacidade de ficar em contato durante um período longo de maceração, além das complexidades aromáticas de cada estilo”, avalia.

Na região da Campanha Gaúcha, Neusa de Lucca, da vinícola De Lucca, conta com laranja feitos a partir das uvas orgânicas peverella e moscato antiga. “Foi a primeira variedade de moscato que os italianos trouxeram para o Brasil. Nenhuma outra é igual a ela: perfumada sem ser exagerada”, comenta Neusa.

Bons bebedores

Quem é o público desse vinho? Segundo os produtores, uma boa parte é de pessoas mais jovens, receptivas às novidades, focadas em uma alimentação mais saudável, que se preocupam em ser sustentáveis. Há também os apreciadores abertos às descobertas, mas com o pensamento nos métodos tradicionais.

Novos estilos e a retomada de velhos processos deram uma chacoalhada no mundo vinícola. “Um movimento que vem contra a massificação dos vinhos”, diz Zanini. Estão se descortinando novas possibilidades que vão além dos brancos, tintos e rosados. Quanto mais diversidade, melhor.