/Por Rafael Tonon

A rotina não começa na vinícola Van Ardi sem que alguém suba o campanário e faça soar o sino de 3 toneladas instalado no meio da propriedade, em Aragatsotn, região vinícola mais próxima de Yerevan, a capital da Armênia. O fundador, Varuzhan Mouradian, é seguidor dos preceitos da agricultura biodinâmica e acredita que as badaladas são imprescindíveis para emanar boas energias para os vinhedos e os trabalhadores.

Quando o sino se cala, é vez de música clássica ecoar pelos alto-falantes. A propriedade de 10 hectares está localizada no sopé do vulcão Aragats, a cerca de 1.000 metros de altitude. Quando Mouradian chegou ali, nos anos 2000, o solo era tomado por pedras e rochas.

Mas ele vislumbrou no terreno uma possibilidade de produzir vinhos de qualidade – o solo de argila e o clima continental com sol quase o ano todo eram bons indicativos. “Senti uma energia nesse espaço e decidi arriscar. Ainda bem que a minha intuição funcionou”, ri.

Levou três anos para que a área estivesse pronta para as parreiras. Hoje, a Van Ardi é uma vinícola familiar de pequeno porte que produz rótulos com cinco variedades, como haghtanak e kangun, duas delas autóctones: kakhet e areni.

A colheita é manual e a adega é quase toda “de garagem”, com prensa de cestos, tanques de inox e uma linha de engarrafamento. Em 2016, a fazenda ganhou 2,3 hectares de syrah, em busca de um público mais internacional, que representa 50% das compras das 150 mil garrafas produzidas e exportadas para países como Rússia e Estados Unidos.

Novo epicentro

Nos últimos anos, a Armênia entrou no mapa global dos vinhos: se muita gente nem sequer imaginava que o país tinha uma produção vinícola histórica (que data de 6 mil anos atrás), já há enófilos que reconhecem nos rótulos armênios vinhos de grande valor.

Foi essa guinada que fez Mouradian e a esposa retornarem à terra natal com os filhos. Depois de 20 anos vivendo na Califórnia, onde se apaixonou pelos vinhos de Napa Valley e estudou técnicas de vinificação na Universidade de Davies, o economista decidiu que, se era para ser enólogo, fazia mais sentido que fosse ali.

“Pensei em seguir meu sonho nos Estados Unidos, mas decidi investir no meu país. Precisamos de mais produtores para mostrar o potencial dos vinhos armênios para o mundo”, defende.

Hoje, os produtores não passam de 100, de acordo com os dados da Fundação do Vinho e da Vinha da Armênia. Quase um terço das vinícolas “nasceram” depois de 2018, uma prova da crescente cena local. A poucos metros da fazenda da Van Ardi está a Armenia Wine Company: é a Concha y Toro local, que ajudou a propagar o nome do país pelo mundo.

Fundada por duas importantes famílias armênias (Vardanyan e Mkrtchyan), a empresa foi estabelecida em 2008, embora as plantações tenham se iniciado dois anos antes. Tudo ali é mais superlativo: são 50 hectares e dez gamas diferentes de vinhos. É um tipo de vinícola mais comercial, por assim dizer.

Qualidade fatiada

A Armenia Wine Company é uma das poucas com parcelas em diferentes zonas vinícolas do país – além de Aragatsotn, também possui vinhedos em Vayots Dzor e Armavir – e que produz rótulos com grande parte das uvas mais conhecidas na Armênia, incluindo a areni, considerada a tinta mais emblemática e versátil.

Ela é capaz de dar autenticidade ou até – dizem os críticos dos blends feitos com ela – se sobressair demais, em um buquê exagerado de cerejas e especiarias. Na Armênia, as uvas se desenvolvem em cinco regiões distintas e há mais de 400 castas catalogadas, das quais 31 são atualmente utilizadas nas produções.

Mas o grande diferencial do país está mesmo na história. Há menos de dez anos, arqueólogos encontraram vestígios da mais antiga “vinícola” descoberta no planeta, uma prova de que os homens já produziam vinho ali há 6.100 anos.

Na caverna conhecida como Areni-1, na província de Vayots Dzor, a mais importante região vinícola do país, os visitantes podem ver os potes cilíndricos de argila onde o vinho era produzido para cerimônias fúnebres. Não longe dali, existe a maior concentração de vinícolas.

Uma delas é a Old Bridge Wine Cellar, fundada por Armen Khalatyan, que deixou a engenharia eletrônica para cultivar videiras. A areni se deu bem por causa do solo vulcânico e rico em minerais. “Nós cultivamos nossas uvas em parcelas que estão de 1.000 a 1.800 metros, o que nos dá características diferentes nos vinhos”, explica Khalatyan.

Sua pequena produção – de 17 mil garrafas – é destinada principalmente à exportação, para países como EUA, Rússia e Suíça, para onde envia 70% de seus rótulos. Um diferencial da Old Bridge – batizada assim em homenagem à ponte histórica perto dali, que foi construída no século 13 e por onde passou Marco Polo – é que todos os vinhos são envelhecidos em barricas armênias (carvalho caucasiano).

A madeira tem origem nas florestas na região de Artsakh e impõe aromas característicos, como notas de eucalipto. “Para mim, é importante que os rótulos que produzimos tenham perfis próprios. Se pensarmos nos vinhos do mundo todo, grande parte deles é envelhecida em barricas francesas, o que, de certa forma, cria um padrão em aromas: sempre há baunilha, caramelo”, diz.

Para Khalatyan, a Armênia tem um caminho próprio a seguir na enologia, honrando a tradição, mas sobretudo as castas únicas e as paisagens diversas. “Precisamos ter orgulho daquilo que produzimos e que só nós temos. Nosso vinho não é igual a nenhum outro.”