/Por Guta Chaves

Vivemos no Brasil um resgate da espécie Vitis labrusca, originária da América do Norte, fazendo jus ao fato de as uvas americanas terem sido protagonistas na história de nossa vitivinicultura. Já no século 16, havia videiras plantadas em solo brasileiro, mas até então eram uvas europeias, as Vitis vinifera L.

Mas a dificuldade de adaptação por conta do clima úmido fez com que não se desenvolvessem bem. O vinho comercial no Brasil foi conquistado no século 19, com a introdução da variedade americana isabel, o que permitiu a produção em escala.

Assim, a Vitis labrusca dominou a produção no país até o fim da década de 1960. “As uvas americanas acabaram se dando bem por conta da tolerância a pragas e doenças”, conta Giuliano Elias Pereira, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho.

Foi só em 1970, com a chegada das multinacionais, que algumas vinícolas passaram a trazer mudas de uvas europeias para serem implantadas, empregando técnicas de manejo no campo e enológicas. A partir daí, os holofotes se voltaram para a produção de vinhos finos, que se expandiu na década de 1990, com a abertura do mercado brasileiro. Mas os vinhos de mesa também se aprimoraram. 

A lenda difamatória

Um dos fatores que colaboraram para a crença de que a uva americana “não é própria” para vinho é a de que ela teria altos índices de metanol, desenvolvido no processo de vinificação pela quebra das pectinas da casca das uvas — o que não procede.

Acontece que todos os vinhos contêm certo grau de metanol: para se intoxicar gravemente, seria preciso ingerir 29,6 garrafas. Destaca-se também o aroma foxado (do inglês “foxy”) da uva americana, que remete a terroso e adocicado, associado ao pelo de raposa (em inglês, “fox”), o que muitos especialistas consideram “enjoativo”. 

O caminho pelo Brasil

Lis Cereja é uma das pioneiras no apoio à retomada dos vinhos de uva americana, principalmente a isabel. Começou a investigar o tema há dez anos, quando quase ninguém dava valor.

“Cheguei à conclusão de que o verdadeiro vinho colonial do século 19 era feito de uvas americanas vinificadas de maneira natural e de vinhedos orgânicos, ou seja, era o vinho natural”, diz.

Para comprovar a teoria dela, passou a visitar o Rio Grande do Sul, buscando produtores que ainda elaboravam vinhos artesanais de uva isabel, praticamente como faziam os primeiros italianos e alemães. E encontrou muita gente.

Como os próprios produtores tinham vergonha de revelar sua produção de uva americana, Lis iniciou um trabalho para tirar essa máscara de discriminação. “No Brasil, a gente relegou as uvas americanas a uma produção ruim, de garrafão, dita ‘colonial’, mas que na verdade é industrial.”

Ainda, a legislação brasileira do vinho separou as duas espécies de uva em categorias diferentes. Só pode ser chamado de “vinho fino” aquele produzido a partir da Vitis vinifera L.; os feitos da uva Vitis labrusca são considerados “vinhos de mesa”.

“Eu não gosto do nome ‘vinífera’ e ‘não vinífera’, gera um preconceito imediato”, comenta Lis. A diferença está no estilo: a Vitis labrusca (como isabel, bordô, niágara, entre outras) é usada para a elaboração de vinhos com menor potencial alcoólico, mais leves, frescos, frutados, ideais para serem consumidos mais jovens. 

Tecnologia a serviço

A mesma tecnologia elaborada para fazer vinhos finos pode ser empregada para o vinho de mesa. A Vinícola Famiglia, de Acir Boroto, que investe na maior parte nas uvas americanas para produzir seus vinhos naturais, tendo como carro-chefe a isabel, dá algumas dicas: primeiro, uma boa matéria-prima, boa poda verde e a escolha do grau de maturidade para cada produto.

Após a vinificação, tomar os cuidados com a questão da higienização e do controle de temperatura. “Nossa proposta é que as pessoas bebam um bom vinho e no dia seguinte não tenham ressaca.”

Outro fator que, segundo o pesquisador Giuliano Elias Pereira, pode contribuir para melhorar a qualidade dos vinhos de uva de mesa é fazer um blend dessas com as variedades híbridas, que estão sendo desenvolvidas pela Embrapa, as BRS.

Elas unem as boas características tanto da espécie labrusca quanto da vinifera. “A demanda pelas BRS tem crescido bastante e pode auxiliar tanto na qualidade de nosso vinho quanto na produtividade.” Caso da variedade BRS lorena, que tem tido ótima aceitação no mercado. 

Foco na produtividade

Os números mostram como é forte o mercado do vinho de mesa para a grande indústria e também revelam a importância socioeconômica desse nicho no Brasil. Dos cerca de 300 milhões de litros produzidos, em torno de 85% são elaborados com uvas americanas e só 15% com uvas europeias (dados de 2020).

Investir na melhora da produção de Vitis labrusca hoje é uma oportunidade que pode ajudar a aumentar o consumo do vinho no Brasil, hoje na marca de 2,5 litros per capita.

“Não existe melhor ou pior; são vinhos com estilos e preços diferentes, para diferentes paladares e bolsos”, diz Pereira. “Um mercado que tem muito para crescer, além de contribuir para um desenvolvimento rural e sustentável.”