/Por Malu Neves

França e Itália podem ser o epicentro da cultura vinícola, mas foram as antigas civilizações do Oriente Médio e do Mediterrâneo que, há 8 mil anos, entenderam o potencial de uvas fermentadas.

Assim como Armênia, Turquia, Grécia e Egito, Israel acumula séculos no cultivo da vinha e na tecnologia da vinificação, seja como fornecedor de vinhos para os Impérios Romano e Bizantino, seja como apóstolo das narrativas da Bíblia – como aquela em que Noé plantou vinhas e se embriagou, tornando-se o primeiro viticultor relatado pelas Escrituras.

Embora o judaísmo aprecie vinho durante cerimônias religiosas, os preceitos do islamismo o tem como pecado. Logo, quando os muçulmanos governaram Israel, em períodos intercalados dos séculos 7 a 20, proibiram o comércio do álcool.

O renascimento da tradição veio em 1882, quando o poderoso barão Edmond de Rothschild, proprietário do Château Lafite Rothschild, em Bordeaux, forneceu mudas de seus vinhedos franceses para o replantio em território israelense, assim como maquinário e mão de obra. A terra sagrada prosperaria de novo, mas à custa de vinhos sem sabor nem aroma.

Por consequência, até hoje luta para se livrar dessa má reputação. Fora isso, o estigma de que vinhos de Israel devem ser kosher – vinificação e engarrafamento supervisionados por um judeu ortodoxo – é outra falácia que ofusca sua imagem, aliás, tão errônea quanto supor que as bebidas kosher não tenham qualidade.

É fato que tantos hotéis e restaurantes exigem esse selo para atender os devotos, tal qual grande parte do que chega aos Estados Unidos, o maior importador de Israel. Mas não é uma premissa comum às 350 vinícolas do país. 

Remissão

Engajada em reverter essa e outras impressões e revelar o potencial fértil dessas terras milenares, uma geração de produtores vem dando nova faceta ao mercado local. “São jovens na maioria autodidatas, instigados por sonhos e apaixonados pelo métier”, conta Ronit Ronen, embaixadora de vinhos israelenses que se empenha em apresentar rótulos-butique desconhecidos pela Europa.

Por trás de um deles está Hai Vortman, que abandonou a engenharia da computação para abrir a vinícola que leva seu nome, em 2003. “Talvez, se eu tivesse estudado numa universidade, estaria numa indústria produzindo vinhos comerciais e não o que me dispus a fazer”, conta o viticultor, responsável pela própria instrução.

Justamente pelo número de microclimas do país, a propriedade de Vortman não sofre com os períodos de seca: localizada num vale do Monte Carmel, em Haifa, região norte de Israel, a proximidade com o Mar Mediterrâneo garante chuvas anuais e noites de temperaturas amenas.

Outra dádiva se manifesta no solo de terras vulcânicas, cuja junção de rochas e minerais confere estupendo caráter a seus vinhos orgânicos, feitos a partir de uvas de belos taninos, como colombard, sémillon, petit verdot e carignan.

Mais uma prova avessa aos protocolos, Yossi Yodfat personifica a juventude hippie crescida num kibutz agrícola – comunidade onde vive e trabalha em harmonia. Há 15 anos assumiu sua aptidão para a lavoura e inaugurou a vinícola Abaya, no topo de uma colina com vista para os olivais da Galileia, a uma hora e meia de Tel Aviv.

Sua missão, antes do cultivo, é restabelecer a saúde de solos anteriormente tratados com fertilizantes químicos. “Não acho que precisamos de aditivos, e sim, de boas uvas”, declara Yodfat. Seus valores são enraizados na ecologia, mas ele detesta que chamem seus vinhos de naturais (embora o sejam, diga-se de passagem).

“Não quero provar nenhuma ideologia. Enxergo meu método apenas como a melhor maneira de fazer vinho: quanto menos intervenção, mais complexidade.” Ele tem razão: seus vinhos são intrigantes, aveludados e aromáticos, e as uvas – carignan e syrah no tinto e colombard no branco – se habituam ao clima quente de Israel.

Triunfo

Aliás, adaptação é imperativa para a vinícola Nana, localizada no deserto de Negev, 8 metros acima do nível do mar, onde as temperaturas chegam a 32 graus. “A vantagem é que não temos problemas com fungos; porém, quase não chove”, comenta o proprietário, Eran Raz.

A saída foi criar um sistema que permite controlar a irrigação por meio de proteções de plástico sobre o solo, que resultam num fluxo lento e horizontal. “Com isso, também controlo o tamanho das uvas, privando as raízes de água”, reforça.

Dessa forma, as variedades chenin blanc, chardonnay e syrah são colhidas pequeninas e concentram sabor e cor. Tão elegantes e leves, seus vinhos caem bem até no café da manhã.

Com tantas virtudes e um terroir único, o que falta para o berço histórico do vinho ganhar projeção? Segundo Itay Lahat, experiente enólogo, o preço pode ser um empecilho – um bom rótulo não sai por menos de 30 euros (180 reais) –, somado a questões políticas e a um mercado novo e pequeno.

“Porém, a identidade do vinho está mudando no mundo todo. A influência da geração Y e de novas tecnologias está transformando a forma de consumo, e nosso país faz parte disso.” Amadurecimento leva tempo: com paciência, Israel colherá belos frutos.