/Por Guta Chaves

Cientistas que trabalham em empresas de melhoramento genético na Europa estão desenvolvendo uvas resistentes através de cruzamentos. Essas cepas são concebidas para fazer frente às variações climáticas, às questões ambientais e às demandas ligadas à saudabilidade.

Apesar de essas pesquisas já existirem há cerca de quatro décadas, a novidade agora é que, além de gerar exemplares resistentes às doenças que mais requerem emprego de fungicidas, cresce o empenho em produzir espécimes bem próximos das vitiviníferas originais, esmerando-se na qualidade.

Como é o caso da Vivai Cooperativi Rauscedo (VCR), o maior viveiro de videiras europeias, localizado na região italiana de Friuli Venezia Giulia. Desde 2006, o programa de melhoramento genético da VCR conta com a parceria da Universidade de Udine e do Instituto de Genômica Aplicada, produzindo cepas como cabernet volos e merlot khorus, que, como seus parentais, cabernet sauvignon e merlot, são caracterizadas pela adaptabilidade a diferentes condições de clima, e por isso têm tido ótima aceitação no mundo vinícola. “A produção de variedades de resistência evolui muito em nível mundial”, comenta Stefano Battistela, gerente de exportação da VCR. 

Boas sementes

Na VCR, o cruzamento para a obtenção de cepas resistentes utiliza cerca de 94% de uvas Vitis vinifera, mescladas em menor porcentagem com espécies não viníferas, como americanas ou asiáticas, resultando cientificamente num produto híbrido. Mas, nas degustações, essas uvas apresentam características organolépticas muito próximas às originais – como a merlot kanthus e a cabernet eidos, que manifestam as mesmas propriedades de aroma e de paladar de seus parentais.

“Fizemos uma degustação em São Joaquim, Santa Catarina, e os vinicultores ficaram impressionados com o desempenho das variedades resistentes”, conta Battistela. Essa performance está ligada ao complexo método empregado pelos melhoristas, em que o cruzamento e o retrocruzamento para obter uma sauvignon kretos ou uma sauvignon rytos, por exemplo, são complexos e ocorrem inúmeras vezes até chegar ao resultado almejado.

De acordo com as técnicas tradicionais, esse trabalho de melhoramento é feito em estufas, com testes no campo, seguidos de seleção fenotípica e da triagem molecular assistida.

“Para nós é muito importante selecionar variedades que tenham perfil polifenólico e aromático de qualidade comparável ou superior à cepa nobre”, enfatiza Ásia Khafizova, consultora em melhoramento de uvas da VCR.

Na maioria das vezes, a VCR se concentra em desenvolver cepas resistentes ao oídio (pode tornar a parte afetada – folhas, ramos e frutas – subdesenvolvida, retorcida e murcha) e ao míldio (ataca folhas e bagos, podendo causar a morte do tecido). Mas estão dando atenção crescente a outras doenças, caso da podridão-negra.

Alternativa exata

As novidades que estão sendo desenvolvidas pela VCR são as variedades resistentes da glera, uva com a qual se faz o famoso Prosecco italiano. A ideia é criar dois ou três análogos de glera, que contenham diferentes genes de resistência, mas que sejam bem parecidos com o parental.

Devem chegar ao mercado em breve, inclusive na Serra Gaúcha, região brasileira com vocação para a produção de espumantes. No Brasil, já temos disponíveis as uvas cabernet eidos, cabernet volos, merlot khorus, merlot kanthus, sauvignon kretos e sauvignon rytos. Estão ainda em processo de registro no país a fleurtai e a soreli.

Em breve também serão disponibilizadas duas pinot bianco (kersus e iskra) e duas pinot noir (volturnis e kors). A VCR atua não só nas regiões vinícolas do Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina, São Paulo, Goiânia, Mato Grosso e Pernambuco. “O Brasil está se tornando um mercado interessante”, diz Battistela, citando clientes como a Chandon Brasil.

Para ele, o mercado brasileiro pode vir a ser importante, conforme aumentam a cultura e o consumo de vinhos de qualidade no país. Os programas de melhoramento genético estão passando por uma grande demanda mundial.

Tanto vinícolas de condução orgânica quanto empresas tradicionais têm se interessado em testar no vinhedo. Pesam na balança os fatores sustentabilidade, a redução de tempo e de custos pela diminuição do uso de defensivos agrícolas e menos emprego de mão de obra, assim como maior rendimento no campo.

“Com relação aos orgânicos, por exemplo, uma variedade de resistência necessita de 70% a menos de tratamento no vinhedo, custando menos para seguir os protocolos”, explica Battistela. “Sem falar do benefício ambiental para o solo e com relação às emissões de gás carbônico.”