/Por Flávia G. Pinho

Gabriela Monteleone estudou gastronomia na Anhembi-Morumbi e, já no primeiro estágio, entendeu que trocar o refrigerante pelo vinho era mais negócio. Foi nesse período, no extinto restaurante Acqua Santa, em São Paulo, que mergulhou de cabeça no universo que logo se tornaria paixão – para nunca mais sair dele.

Certificou-se pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS), passou por casas conceituadas de São Paulo, como Gero, Ici Bistrô e Pomodori, até tornar-se sommelier-chefe do Grupo D.O.M.

Como empreendedora, no entanto, Gabriela se afasta dos ambientes sofisticados e defende a democratização da bebida. Lançou o projeto Tão Longe, Tão Perto, em parceria com o também empreendedor Ariel Kogan, que começou com degustações on-line e virou uma linha de vinhos vendidos em barris, para que os restaurantes e bares os sirvam em torneiras.

Praticamente ao mesmo tempo, pôs no mercado o Vinho de Combate, rótulos comercializados em embalagens bag-in-box de 3 litros. Em entrevista exclusiva, a sommelier compartilhou suas ideias tão particulares sobre o mundo dos vinhos.

Qual foi sua intenção ao criar o projeto Tão Longe, Tão Perto? 

Tudo começou com as degustações on-line, em março de 2020 – como ninguém estava consumindo nos restaurantes, todos fechados em função da pandemia, imaginei um meio de vender mas que também aproximasse os consumidores dos produtores. Fizemos mais de 20 lives, com a participação de mais de 60 produtores do mundo inteiro – um conteúdo bem denso que está virando livro. 

E como surgiu a segunda etapa do projeto? 

Não queria que ele se encerrasse na discussão: um ano depois, lancei uma seleção de vinhos brasileiros, comercializados em embalagens retornáveis. Os growlers de 1 litro, destinados ao consumidor final, podem ser comprados pelo delivery e usados como refil; basta encher de novo nos estabelecimentos parceiros.

Para os bares e restaurantes, há barris de 20 litros, para engatar em extratoras com torneiras, como as de chope. O vinho já sai na temperatura certa, é uma história pioneira. Além de ser uma alternativa mais sustentável, facilita para o estabelecimento que quiser servir vinhos em taça. 

Que vinhos você escolheu para esse projeto? 

Do produtor Ivan Tisatto, tenho um branco de uva lorena, um rosé de lorena e merlot e um tinto cabernet sauvignon. Há ainda lotes menores do sangiovese da Valparaíso e outro tinto da Bella Quinta, corte de cabernet franc e corbet.

A aceitação tem sido excelente, mas eventualmente posso mudar a seleção, conforme o que a agricultura oferecer. A ideia é trabalhar juntamente com o produtor, não fazer com que ele trabalhe para a gente. Dessa forma, a cadeia fica mais justa.

O Tão Longe, Tão Perto já chegou a diversos restaurantes de São Paulo, entre eles o Futuro Refeitório, que é nossa loja-conceito. Tudo o que entra de novidade vai para lá primeiro. Também estamos no Rio de Janeiro e em Salvador. 

Por que decidiu apostar na embalagem bag-in-box? 

Queria lançar uma opção prática para levar em viagens ou piqueniques que também fosse boa para restaurantes que querem vender vinho em taça e não têm tanto giro.

Desenvolvi o projeto Vinho de Combate com o Luís Henrique Zanine, enólogo da Vallontano, que também tem um projeto próprio, a Era dos Ventos.

Pensamos em uma linha de vinhos fáceis de beber, sem qualquer pretensão elitista, saborosos e bem-feitos. Há sempre um branco, um tinto e um rosé elaborados com uvas de pequenos produtores da Serra Gaúcha. 

No passado, a bag-in-box não emplacou. O que mudou? 

A imagem era ruim, porque só se destinava a vinhos menores. Agora não. Nosso produto é bacana, elaborado para esse envase, com muito cuidado em todas as etapas. São vinhos frescos, cítricos.

Um tinto com pouca extração, agradável quando está mais fresco na hora de beber. A caixa é uma graça e seduz o consumidor pela praticidade. A reação tem sido positiva.

Que mudanças a pandemia provocou no mercado consumidor de vinhos? 

Acho que as pessoas reduziram suas expectativas e tiraram o vinho do lugar de produto de luxo – sem bar nem restaurante para beber, o jeito foi tomar vinho em casa. A bebida passou a ser encarada como alimento, e muita gente desenvolveu um olhar carinhoso para a produção nacional.

O mercado de vinhos pode mesmo ser esnobe, o que se explica por nosso passado colonial. O Brasil não tinha autonomia para produzir, o que pôs o vinho na posição de artigo de luxo, algo caro que nem todo mundo podia beber. Com isso, jovens que gostavam de beber vinho viviam deslocados, sobretudo pelo preço. 

Já não é mais assim? 

Não. Agora temos abertura, uma produção nacional expressiva, projetos de novos vinhateiros, sommeliers jovens que não trabalham apenas com a fina flor da Borgonha e gostam de fazer uma curadoria a partir dessa nova produção. Quem toma vinho gosta de conhecer coisas diferentes. 

O preço do vinho nacional continua sendo um problema? 

É cruel comparar a produção nacional com a chilena, por exemplo. Produzimos menos, em território menor. O setor é altamente tributado e lida com exigências, da parte da Anvisa, que foram elaboradas para a realidade de grandes produtores.

Aqui, há uma elite que ainda prefere os rótulos importados, o que não acontece no Chile e na Argentina, onde o consumo local é bastante aquecido. Não criamos, portanto, um ambiente de competitividade.

Mas o consumidor brasileiro que toma um vinho chileno médio, na casa dos 70 reais, já pode começar a migrar para os nacionais, basta ter informação. É aí que entram meus projetos. Muita gente nunca provou vinhos nacionais porque não havia comunicação. 

Como anda a imagem dos vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos no Brasil?

 Falar de vinhos naturais é tão importante quanto falar de alimentação orgânica. Mas, em um país com tanta desigualdade, é um discurso para uma elite. Quem tem mais informação e mais dinheiro está indo nessa direção, ou pelo menos deveria ir.

Os mais antenados sabem que até o Romanée-Conti já é biodinâmico. Tem muita novidade no mercado, e ele ainda vai crescer bastante, no Brasil e no mundo. Estamos no meio de um caos climático, e até as grandes empresas já estão focando nesse nicho, fazendo tentativas de fermentação espontânea em grande escala.

Podemos esperar mais projetos para 2022? 

Lanço o livro Conversas acerca do Vinho, que teve origem nas degustações e lives do Tão Longe, Tão Perto. É uma edição independente. Explico conceitos básicos de vinicultura, mas o vinho é uma desculpa para falar de outras coisas importantes, como agricultura e ética na cadeia produtiva.

É para técnicos que buscam um respiro filosófico e para entusiastas que procuram conteúdo. Ainda no primeiro semestre, pretendo retomar os encontros presenciais.