/Por Sergio Crusco

A revolução do novo Chile não representa apenas o cultivo de vinhas em áreas inexploradas ou a introdução de cepas antes pouco comuns nesses territórios, mas também o resgate do que fez história na vitivinicultura chilena. Nesse sentido, não há fruta mais simbólica do que a país

E não há região mais em alta do que Itata, citada por vários especialistas quando se quer falar em “novidade”. A uva país, natural das Ilhas Canárias, foi levada ao Chile por missionários jesuítas no século 16. Também passou pela Califórnia (batizada de missión) e pela Argentina (conhecida como criolla chica).

Esteve esquecida no Chile, onde por séculos foi sinônimo de vinhos populares, malfeitos. Até que, no novo milênio, foi reabilitada por adeptos dos vinhos naturais e ganhou protagonismo. “A país tem alto rendimento e, quando bem trabalhada, origina bebidas de fruta muito fresca, textura granulosa, taninos presentes, mineralidade e um pé na rusticidade”, diz o sommelier Adiu Bastos, que colocou vinhos de uvas ancestrais sul-americanas nas cartas dos restaurantes do Rosewood São Paulo.

Símbolo de uma filosofia

Alguns dos vinhedos seculares de país nas regiões de Maule e de Itata são hoje explorados por vinícolas naturebas que recriam o estilo pipeño (o vinho de pipa, primo do nosso vinho de garrafão), uma bebida simples, mas com personalidade e fácil de ser entendida – por isso seu sucesso entre o público jovem.

Mais uma vez, grandes vinícolas voltaram os olhos e a força para a país, reabilitando-a e colocando-a no mapa dos vinhos chilenos a serem recomendados. O mesmo ocorreu com a cinsault, a estrela de Itata, que chegou da região mediterrânea da França anos mais tarde, no século 19, e por um bom tempo também recebeu pouca atenção.

Hoje é vinificada de diversas maneiras, inclusive à moda antiga, fermentada em talhas de barro. Vale a pena provar o cinsault da região. “Tem uma fruta muito presente e um bom equilíbrio em boca”, aponta a enóloga Javiera Rojas, da Las Niñas, que vê o Chile colocando a alta tecnologia que desenvolveu nas últimas décadas a serviço do resgate de sua ancestralidade vínica.

Do mesmo modo, a nova onda de vinhos laranja chilenos merece atenção. “Macerar a casca das uvas para vinificar era a maneira antiga de se fazer vinho branco no país”, diz Marcelo García, que, em sua linha Disidente, da TerraNoble, apresenta um fino laranja de Casablanca feito de pinot blanc e pinot gris, uvas que, até pouco tempo, mal frequentavam o mapa vinícola do Chile.

Características mais marcantes da uva país

“É o que há de mais chileno que o Chile pode oferecer ao mundo”, diz Patricio Tapia, crítico e autor do famoso Guia Descorchados sobre a uva país. De muita textura e ótima acidez, a cepa dá origem a vinhos rústicos, bastante gastronômicos e de corpo médio.

Com o tempo, os taninos ficam elegantes e macios, parecendo um veludo. Se você já conhece a carignan, nativa da Espanha e com mais de 60 nomes diferentes (como mazuelo, cariñena etc.), é possível que encontre algumas semelhanças entre elas.