/Por Sergio Crusco

O Chile não é mais aquele, e é mesmo bom que não seja. O país que mais exporta vinhos para o Brasil teve sua geografia vinícola expandida na virada do milênio para cá. Não apenas de norte a sul — da região desértica do Atacama às portas da fria Patagônia

Apesar da cintura fina de seu mapa, houve movimento a leste, em direção às altitudes dos Andes, e a oeste, em busca das brisas do Pacífico. “Essa expansão obviamente significa muita diversidade, pois leva a resultados bastante distintos.

O chardonnay da região de Limarí, por exemplo, leve e muito fresco, antes não existia no Chile”, diz Angela Mochi, sócia da vinícola Attilio & Mochi, ao lado do marido, Marcos, na região do Vale de Casablanca. Angela faz parte de um grupo de produtores que forçou a transposição de limites e mudou a cara do país com novos aromas, sabores, terroirs e estilos.

Muitos de seus produtos estão bem distantes do jeito sóbrio, encorpado e amadeirado dos cabernet sauvignon e carmenère que reconhecemos como tipicamente chilenos. Ou dos chardonnay e sauvignon blanc igualmente “pesados”. 

O Movimento de Vinhateiros Independentes do Chile (Movi) reúne 39 pequenas e médias vinícolas que trabalham em sistema de cooperação financeira e causam rebuliço com suas descobertas.

É de autoria do casal brasileiro da Attilio & Mochi o primeiro e premiado 100% garnacha (grenache, se preferir) da região de Casablanca. Trapi del Bueno, outra vinícola associada ao Movi, produz um dos pinot noir mais delicados do Chile, em Osorno, na Patagônia (e você pode tranquilamente compará-lo aos de Borgonha).

Viña Gillmore, que atua em Maule desde os anos 1990, foi pioneira na vinificação de carignan e, mais recentemente, introduziu a rara uva italiana aglianico no pedaço. Isso para citar só um pouquinho das peripécias da turma.

A ousadia dos pequenos

A inquietação desses produtores reverberou no mercado, com vinhos premiados e aclamados pela crítica, a ponto de contagiar algumas das grandes vinícolas – as mesmas que moldaram o perfil tradicional do vinho chileno.

Na TerraNoble, o enólogo Marcelo García conquistou a liberdade de fazer bebidas fora da curva: a linha Disidente, cujo nome entrega suas intenções – “parte da loucura de se atrever”, nas palavras de García.

“São vinhos de autor que saem do tradicional e interpretam um estilo enológico novo, mais fresco, mais elegante, com uso moderado da madeira ou mesmo sem madeira nenhuma.”

Um dos três blends da linha Disidente (carignan, mourvèdre e garnacha, corte comum no sul da França) representa bem um dos muitos novos estilos chilenos, com corpo médio, muita presença de fruta e acidez na medida, exprimindo, porém, grande complexidade.

“É um vinho amplo, com muita estrutura, e que respeita as uvas e seu terroir, a qualidade dos vinhedos”, defende García. O protagonismo da fruta, em oposição ao tratamento por vezes exagerado de vinhos com madeira, é um traço comum na produção dos enólogos que desafiam os paradigmas do mercado.

Mesmo trabalhando com uvas tradicionais, há quem consiga resultados diferentes do mainstream, caso da orgânica Viña Las Niñas, situada em Apalta, Vale do Colchagua, empreendimento firmado por vinhateiros franceses. Seus varietais ou cortes envolvendo cabernet sauvignon, syrah, merlot e carmenère (as tintas mais plantadas no Chile) surpreendem pela leveza e pela elegância.

“Vinhos frescos e aromáticos estão na vanguarda, e creio que essa seja uma tendência global. Hoje os consumidores buscam vinhos que respeitem a tipicidade da fruta: vinhos mais naturais, autóctones, com menos intervenção e mais versáteis quanto ao momento e ao lugar de consumo”, diz Javiera Rojas, enóloga da Las Niñas.

A reinvenção dos clássicos

Os austeros vinhos bastante extraídos, tânicos e amadeirados não perderam terreno nem o perderão tão cedo: continuam representando a maior fatia de público do vinho chileno. Há, porém, um consumidor mais arriscado, que busca frescor e aventura.

A longa série de degustações Wines of Chile Luxury Tastings, realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 2021, apresentou vários rótulos que abraçam essa filosofia e identificou esse novo bebedor.

“Mais do que uma tendência de mercado, há consumidores exigentes, de paladar mais avançado. O Chile pode oferecer vinhos com essas características, devido a sua grande capacidade de produção”, diz Angelica Valenzuela, diretora comercial da Wines of Chile, associação que promove os vinhos chilenos globalmente.

Para quem tem curiosidade e vontade de desafiar padrões estabelecidos, o Chile tem muito mais com o que nos brindar. “A syrah desenvolve-se bem em várias regiões do país, resultando em vinhos de diferentes perfis em cada lugar”, diz Angela Mochi.

Roussane, cabernet franc e malbec (invadindo o protagonismo argentino) também têm rendido belos vinhos. As uvas país e cinsault (falaremos delas mais detalhadamente a seguir) são as estrelas de Itata, região da moda.

Entre as brancas, destaque para a sémillon e, por incrível que possa parecer, para os rieslings produzidos na região norte de Casablanca, na vizinhança com o deserto de Atacama, citados pelo sommelier Adiu Bastos, do Rosewood São Paulo, como impecáveis.